Gilberto Verardo - Psicólogo, psicoterapeuta
Poderíamos falar sobre “os poderes” visíveis e invisíveis. Para o momento, melhor focar no “poder representativo”. Largamente visível em tempos eleitorais, invisível após a posse. Incrível, mas é um fato. Depois de eleitos, os representantes se entrincheiram nos gabinetes.
Considerado a mola propulsora da democracia contemporânea, o poder representativo está em processo de desvio de finalidade.
Representantes populares investigados e processados voltam à cena política com o semblante mais angelical do paraíso político.
Não sabemos se o meio contaminou esses anjos da política ou se eles sabiam do endereço de se deixar contaminar pelo vírus de práticas corruptivas.
O conhecimento amplo dessa prática se deve à mídia em geral, que, incansável, revela um desencanto progressivo na consciência coletiva.
Perigoso, pois não há alternativa ideológica para abrigar as esperanças individuais e coletivas da representatividade. Perigoso, pois costuma atrair vilões com receitas mágicas e onipresentes.
Perigoso, pois este desencanto é há muito conhecido nos bastidores da prática política. Sabe-se, agora com maior clareza, que o poder representativo vem sendo utilizado, há um bom tempo, para práticas opostas, e bem opostas, à função real do poder representativo.
Assim, nada mais justo do que este desencanto com o que era para distribuir riquezas geradas por todos ser utilizado para a obtenção do lucro espúrio e muito, muito egocêntrico.
Talvez seu maior impacto não se encerre na prática, mas nas consequências, pois os bons valores são substituídos pela exuberância passageira do lucro imoral e antissocial.
É o poder adoecendo o já frágil tecido social, com a devida anuência dos labirintos jurídicos, criados muitas vezes nas Assembleias Legislativas e no âmbito do Congresso Nacional, criando um invólucro protetivo para práticas desviantes da boa índole da representação.
Ao tomar conhecimento desta prática nas instituições destinadas a disseminar uma prática de zelo às coisas do bem comum, os que mais se ressentem são os idôneos, obedientes e cívicos.
Possivelmente, adoecem sem conhecer suas razões. A decepção é o vírus que se incuba no corpo moral da sociedade. Será esta prática tolerável na ótica do capitalismo selvagem ou será um desvio de caráter?
Para nós, os normais da sociedade civil pública, a pessoa que tudo faz para ocupar um cargo no poder representativo objetivando exercitar coisas de seu ego pessoal ou para mirar no lucro escuso é um desvirtuado moral, pois sabe distinguir o que é certo e o que é errado, o que é moral e ético e o que não é.
Portanto, tem consciência do que faz, e isso merece reflexão acompanhada de extrema preocupação, pois estamos diante de um quadro de transtorno de personalidade antissocial e não adianta contemporizar.
Para o Código Internacional de Doenças (CID-10), a característica essencial do transtorno da personalidade antissocial é um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que inicia na infância ou começo da adolescência e continua na idade adulta. Este padrão também é conhecido como psicopatia, sociopatia ou transtorno da personalidade dissocial.
O engodo e a manipulação são aspectos centrais do transtorno da personalidade antissocial. (no CID-10 é F60.2 – 301.7 – Personalidade Antissocial – DSM.IV).
Claro que há exceções, temos gente que merece nosso respeito, mas, pelo que se tem visto pela mídia, revelando práticas e atitudes estranhas à lei e à moral civilizada, certamente a crise política nas proporções atuais está relacionada mais ao caráter de quem ocupa o cargo do que à sua finalidade intrínseca.
Afinal, o poder representativo foi concebido pelo homem e para o homem educar seus ímpetos egocêntricos e exercitar seu espírito solidário na vida coletiva. Neste sentido, o desprendimento do próprio ego deve ser uma primeira virtude necessária para o exercício representativo, tão essencial à saúde da vida em sociedade.
Mas é preciso ficar atento aos bons e virtuosos momentâneos. Eleições são um caldeirão mágico que transforma caráteres da noite para o dia.
O ressentimento coletivo com os Poderes tem se expressado em várias formas, que podem ir da violência até a apatia.
Notadamente, para os cumpridores do dever e obedientes, a decepção moral deságua no processo de “somatização” física ou psíquica, quer dizer, como os meios para expressar tais ressentimentos são restritos e burocratizados, e termina direcionando para o próprio corpo as toxinas geradas por este processo desviante dos bons valores.
Será que todo o arranjo jurídico utilizado nos processos de ampla defesa inibe ou ajuda esta distorção patológica do poder representativo?