Fausto Matto Grosso - Engenheiro civil e professor aposentado da UFMS
A revelação recente da existência de um esquema de pastores dentro do Ministério da Educação expõe uma maneira de ser do bolsonarismo.
Revela uma relação promíscua entre o governo e algumas igrejas e pastores evangélicos que acontece em várias outras áreas da administração.
É preciso lembrar que tivemos outra manifestação desse problema no Ministério da Saúde, com a ação de pastores lobistas que influenciavam a compra de vacinas pelo governo. Parece que estamos diante de um grande escândalo, que já tem sido chamado de “bolsolão”.
O lema do lobista, como já foi gravado no caso do Ministério da Educação, é “você me ajuda que eu te ajudo”, ou seja, uma troca de favores às custas de verbas públicas, o que não é novidade no caso brasileiro.
O governo ajuda os pastores, os pastores ajudam os prefeitos e estes devolvem votos e barras de ouro, que não se sabe onde vão parar.
Esse sistema é muito parecido com o da relação entre governo e deputados federais, por meio das famigeradas emendas parlamentares.
Os parlamentares que ajudam o governo nas votações recebem verbas para levar às prefeituras que pretendem cooptar. Essa maneira clientelista de fazer política destrói a eficácia das políticas públicas e forma a base para a corrupção.
No atual Orçamento, esse sistema de privatização do dinheiro público vem acobertado pela absoluta falta de transparência de uma parte substancial, que forma o orçamento secreto, em que não se sabe quem fez a emenda e quem é o beneficiado.
Esse sistema de troca de favores tem raízes profundas na sociedade brasileira, vem desde o tempo do coronelismo.
O sistema coronelista juntava coerção com cooptação. Era o coronel quem permitia o acesso a certos benefícios sociais. Essa era a sua moeda de troca, por isso, era odiado, mas também amado.
O escândalo dos pastores está motivando uma iniciativa de senadores para a criação de uma CPI sobre o assunto, mas o governo joga pesado na sua inviabilização, conseguindo, inclusive, que três senadores retirassem as suas assinaturas da petição inicial.
Outra frente de resistência do governo é a negativa de transparência na agenda presidencial, com o que se procura esconder o intenso acesso de pastores diretamente ao presidente. A agenda presidencial passou a ser tratada como assunto de segurança nacional, protegida pelo sigilo.
Naturalmente, nem todas as igrejas evangélicas estão envolvidas nessas falcatruas. Trata-se de alguns maus pastores, espertalhões que tentam aproveitar da situação de termos um presidente e um governo com quatro ministros declaradamente evangélicos e um juiz do Supremo Tribunal Federal indicado por ser tremendamente evangélico.
Há resistência a esse tipo de prática em amplos setores da igreja, que têm motivado a manifestação de outros pastores denunciando o jogo espúrio, o que deve ser saudado.
O eleitorado evangélico também se manifesta criticamente, como mostram as pesquisas. Segundo o Poderdata, 40% dos evangélicos acham o governo Bolsonaro ruim e péssimo.
Se Bolsonaro for reeleito, ele terá o direito de indicar mais três ministros do Supremo e estaríamos caminhando para uma situação de controle da Justiça, semelhante ao da Venezuela de Chaves e Maduro.
Enquanto isso, Deus tudo vê (Hebreus 4:13).