Gilberto Verardo - Psicólogo humanista
Números são infinitos, imprecisos, incontroláveis, mas cheios de sedução. Acho que por ser igual à cenoura que você coloca na frente do coelho em uma vara estendida. Ele corre para pegá-la, porém nunca alcança.
Com números e dinheiro é assim. Quanto mais, menos parece satisfazer. Os números sempre querem ser exatos. Só ficam lado a lado de outros iguais quando é para aumentar. Números fazem as pessoas irem do céu ao inferno. Eles escravizam ou libertam.
O mundo é obcecado por eles. Não é bobagem pensar em um símbolo tão ditador do cotidiano como eles. Ainda assim, prefiro gastar os números do meu tempo em observar o que ele não controla. A mudança de tempo é um deles. Seu olhar participa.
Com números, dificilmente, eles engolem o seu tempo e a sua ansiedade em querer doutriná-los por sua índole ansiogênica. Só tem resolução temporária em todos os males em que resolve se meter.
A estatística é uma tentativa de dar substância e poder a eles , mas esbarra na infinitude e no controle incontrolável de uma ansiedade numérica sem fim. Com ela, criou-se o anjo e o demônio numérico de cada um. Então, melhor admitir que gostamos de coisas incontroláveis.
Números são uma fonte de provocação para continuar a busca pelo controle e pelo dominado. A culpa sempre cairá no desejo de cada um. Números viciam. A ausência deles provoca síndrome de abstinência. Mas a vida distante deles é um relax total.
Como se, pela imaginação, abrisse as algemas numéricas. São poderosos quando alguém os adota incondicionalmente, especialmente quando imagina que tudo pode.
Frágeis se não dá toda a atenção que sempre pedem. Não sei se é plausível descontruir números, mas não ficar arrumando palco e cenário todo santo dia já seria estabelecer uma equidistância prudente, de modo a não ocupar seu sentido de vida com símbolos escravagistas como números e cifrões. Há algo mais elegante para sua existência do que esta simbologia numérica.
Os números hoje utilizados foram criados pelos indianos no século 5 da era cristã, mas foram difundidos pelos Árabes.
Essa representação numérica ficou conhecida por meio do matemático árabe chamado Al-khawarizmi. Os números surgiram há mais de 30000 anos. Inicialmente para contar rebanhos e objetos ao deixarem de vez a vida de nômades.
Já naquele tempo a mania de quantificar escondia a qualidade. O caro virou sinônimo de qualidade e a quantidade de poder de barganha. E o mundo se quantificou. Desde então, está presente ao dia a dia humano a milhares de números anuais.
São longevos por não ter controle ou por colocar tudo sob sua batuta? Eis a questão desafiadora para todos do planeta economês. A inflação depressora de ânimos é o batom da economia pós Covid-19.
Penso que deveria me colocar um bom desafio: quantificar emoções e sentimentos, como a alegria, o bom humor, a felicidade, e assim por diante. Controlar o incontrolável: as emoções humanas, com a estrita preocupação de buscar um jeito de qualificar as boas emoções.
Por outro lado, poderia estender tal pretensão aos gases de efeito estufa que queimam esperanças futuras pela incerteza em não controlar este fenômeno gasoso com os cifrões acumulados e os números probabilísticos.
Já para as eleições deste ano, ainda não há como saber sobre os fundamentos numéricos dos candidatos, que ainda se apegam às estatísticas para ficar mais apaixonado ou menos pelo bem comum. Nos resta a intuição. Uma espécie de antítese do poder numérico.
Nestas dezenas de palavras, fiquei com a impressão de que criamos coisas para nos escravizar ao pretender libertar-se, a exemplo da conta no banco: o desejo de acumular cifrões termina por criar uma certa neura em fazer de tudo para não perdê-lo, iniciando um caminho perigoso entre o real e o ideal da liberdade que espera para si mesmo.
Tenho minhas dúvidas a respeito do poder dos cifrões numéricos. Talvez funcione bem em almas áridas de sentido existencial e baixo poder em acumular reais amizades. Estas, sim, uma boa conta a se abrir no banco da vida. Ou você controla seus números, ou eles submeterão sua vida a eles.
Depois não adianta querer falar sobre liberdade no palanque do desejo.
Para o estômago de milhões de pessoas ao redor do mundo, fica difícil entender as contas do mundo economês e admirar as peripécias cognitivas dessas explicações mirabolantes do plantão capitalista, mais para selvagem do que para civilizado no cenário da desigualdade global. Isso não é riqueza virtuosa.
É uma dança frenética de pessoas e números no baile da vida.