Marisa Bittar, Amarilio Ferreira Jr. - Professores titulares da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)
Deixou-nos, na madrugada de 1º de junho, o querido amigo Fausto Matto Grosso, que também foi nosso colega como professor de Engenharia da UFMS.
Nossos corações, nesse dia tão triste, se irmanam aos de sua família e aos de todos que têm em Fausto aquela espécie de irmão mais velho a quem amamos e respeitamos.
Personalidade marcante da política sul-mato-grossense, Fausto começou a sua militância ainda jovem, como membro do PCB, que viria a exercer grande papel na luta contra a ditadura militar, e nesse partido se destacou como um dos maiores articuladores da frente democrática na década de 1970.
Em 1982, ao lado de Marcelo Barbosa Martins, foi o segundo vereador eleito pelo PCB e colocou a sua vereança em favor das demandas políticas e sociais da época.
Seu dedicado e incansável trabalho na Câmara Municipal de Campo Grande ficou registrado no livro “Política, Esquerda e Democracia”, que ele escreveu em 2018, depois de muito pensar se deveria ou não fazê-lo. O nosso argumento em favor da história política de Campo Grande felizmente o convenceu.
Além da Capital, sua atuação se estendeu ao Estado todo quando, no governo de José Orcírio dos Santos, foi secretário de Planejamento, ocasião em que realizou estudos sobre os cenários de desenvolvimento possíveis para Mato Grosso do Sul.
Fausto foi um exemplo raríssimo de devoção à causa que abraçou – a justiça, a igualdade social, a democracia. Nas inúmeras ações, embates e projetos de que participou, deixou a sua marca contra a vaidade, o dogmatismo e a arrogância, buscando sempre a convergência possível na ação.
Sem pretender ensinar, discreto, ele foi um mestre na arte política, convencendo pela palavra, pela paciência e pela constância. Discreto, Fausto nunca buscou projeção individual, o que sempre colocou acima de si próprio foi a causa por uma sociedade melhor.
Sua virtude de escriba era o traço que mais chamava nossa atenção, pois nada escapava à infalível “cadernetinha do Fausto”! Em 2021, prevendo o centenário do PCB, fundado em 1922, Fausto nos colocou a par de seu novo projeto: escrever sobre a história do partido em Mato Grosso do Sul.
Mas não uma história de historiadores, preveniu ele! Uma história vivida por nós, com os nossos sonhos, erros e acertos, uma história de carne e osso. Conversamos longamente sobre isso durante o período mais duro da pandemia.
Em seguida, disciplinado como era, ele começou a colocar em prática as suas ideias e, neste ano, tal como pretendia, seu livro “Histórias que Ninguém Iria Contar” foi lançado, homenageando o centenário do PCB.
São páginas de puro deleite, crônicas que revelam acontecimentos políticos desconhecidos do público e dos quais Fausto foi partícipe. Com uma pitada de humor, como ele queria, ficou-nos esse belo registro, ao qual ele, mesmo gravemente doente, elegeu como tarefa inadiável de sua vida.
Além de lutar por uma sociedade justa e solidária, também precisou lutar muito para viver e, nessa longa conversa, disse-nos que não poderia adiar seu projeto um minuto sequer.
Fausto fará imensa falta no cenário já pobre da política brasileira. Reserva moral da política sul-mato-grossense, referência para todos que a pensam como a arte do bem comum, a arte de melhor viver na sociedade humana, ele deixa um vazio incomensurável a nós, seus inúmeros amigos, que ao longo de tantos anos nos acostumamos a amá-lo em silêncio. Sim, em silêncio, respeitando seu modo contido de ser.
Estimativas indicam que o total de humanos que já viveram no planeta Terra gira em torno de 108 bilhões. Para nós, seus amigos, é uma honra e um orgulho que tenhamos vivido na mesma época do grande Fausto Matto Grosso.