Para se ter gelo pronto no freezer você tem que ter enchido suas forminhas de água e deixado tempo suficiente no freezer para que a física faça o restante do trabalho.
Mas caso você não tenha feito isso e nem tenha gelo pronto, certamente terá que pagar numa conveniência mais próxima por algo que não custa quase nada para fazer, mas que por falta de planejamento você terá que desembolsar uma quantia por isso.
Sem dúvida uma das carteiras mais insatisfatória de se trabalhar dentro de um escritório de advocacia, é aquela especializada na proteção de servidores públicos superendividados.
São servidores públicos (municipais e estaduais), que aos poucos vão comprometendo seus salários com empréstimos consignados até se encontrarem numa situação de superendividamento, ou seja, com o que ganham mensalmente não conseguirão pagar todas suas contas mensais, sem que para isso sejam obrigados a pegar mais empréstimos, entrando naquela famosa “bola de neve” financeira.
Há casos de servidores públicos, por exemplo, que têm salário bruto acima de doze mil reais, cujo salário líquido é de cerca de R$ 170,00, o que certamente não lhe permite uma vida digna, segundo o conceito da dignidade da pessoa humana previsto na Constituição Federal.
E o que mais causa angústia nestes casos, é que para servidores públicos municipais e estaduais, a legislação local permite com que eles comprometam até 70% de seus salários para contratação de empréstimos consignados, “adiantamentos salariais”, que na verdade são cartões de crédito, bem como o próprio cartão de crédito, que muitas vezes é usado somente para contrair mais empréstimo.
Para os demais trabalhadores (celetistas e profissionais liberais) esse limite é de tão somente 35%, ou seja, metade do limite permitido para os servidores públicos. O motivo para tamanha diferença até hoje não consegui entender.
Esses 70% somados a outros descontos, quais sejam: imposto de renda, plano de saúde, contribuições previdenciárias e eventuais descontos judiciais, fazem com que alguns servidores sejam obrigados a viver com menos de 10% de seus salários, e isso é legal, segundo nosso ordenamento jurídico. Desta forma, a grande maioria das decisões judiciais em casos como estes é desfavorável aos servidores, que são obrigados a permanecerem superendividados e agora com a chancela judicial protegendo as instituições financeiras.
Sem uma resposta jurídica capaz de resolver o problema, a única saída para que os consumidores saiam desta situação é a orientação, e neste sentido, percebo que o fato do servidor possuir uma estabilidade e um salário garantido todos os meses, contribui para que ele se endivide.
Uma vez ciente de que sua condição financeira certamente não passará por transições drásticas, o servidor começa a antecipar seus planos, sonhos e projetos futuros, e a forma de fazer isso é contratando empréstimos consignados com a justificativa de que os juros são os mais baixos do mercado, e realmente são.
Só que juros baixos ainda são juros, ou seja, é um dinheiro que você pegará e que pagará por ele mais do que realmente pegou, e quanto maior o prazo para pagamento, maior será seu prejuízo, ainda que as taxas sejam baratas.
Um empréstimo de dez mil reais, por exemplo, feito em 48 meses com juros de 1,15% ao mês, por exemplo, representará ao final do contrato um valor de R$ 3.069,92 (fora encargos e taxas), o que representa mais de 30% do valor tomado de empréstimo.
Tudo isso para antecipar um plano, sonho ou projeto. Ao fazer isso o servidor sem perceber penhorará parte de seu salário pelos próximos 4 anos.
Desistir de antecipar um projeto e aguardar para pagá-lo à vista, ao mesmo tempo em que traz uma economiza considerável, ela também significa a antecipação dos seus projetos futuros, pois, com esta diferença seu segundo projeto poderá ser iniciado mais rapidamente do que aguardar o final do empréstimo contratado, para aí então iniciar seu segundo plano, e isso tudo, sem dar dinheiro para bancos e instituições financeiras.
As pessoas mais controladas financeiramente falando fazem isso, aguardam um tempo juntando dinheiro para executar seus projetos, sem antecipá-lo ao custo de pagar juros.
Isso é renunciar a um prazer imediato e, racionalmente, se disciplinar para juntar o dinheiro necessário para realizar o pagamento à vista – por vezes com descontos – sem a necessidade de ter um prejuízo financeiro para bancar uma satisfação imediata, controlando suas emoções.
Uma pessoa que gasta dinheiro para obter prazeres imediatos em pouco tempo sofrerá as consequências de seus atos. Acredito que este tipo de atitude acaba refletindo em outras áreas da vida de uma pessoa, não só na área financeira.
É como precisar de gelo num sábado à noite e perceber que suas forminhas estão vazias e não tem gelo pronto na porta da geladeira.
Executar planos depende sempre de planejamento, disciplina e tempo de construção. Controlando seus gastos e projetos, num futuro próximo você poderá estar investindo parte do que ganha e, num futuro mais distantes, talvez até possa viver de renda, quem sabe.
Como está sua forminha de gelo hoje?