Cel. ângelo Rabelo - Ex-Comandante da Polícia Militar Ambiental, presidente do Instituto Homem Pantaneiro
O processo de evolução natural que acontece no Pantanal, no tocante às mudanças de titularidade nas propriedades, deve ser respeitado e faz parte de um novo ciclo de renovação natural.
Devemos estar atentos para que as transformações que estão ocorrendo não coloquem em risco o legado do “pantaneiro raiz”.
Este legado se consolida no respeito aos limites que a natureza impôs ao homem e que nunca foram ultrapassados com máquinas ou intervenções que modificassem o bioma e sua maior riqueza: o fluxo das águas e a vida silvestre. Uma relação que não tinha máquinas, apenas determinação, resiliência e coragem. Um equilíbrio sábio de interesses pautado pelo respeito.
No livro “Lembranças Pantaneiras”, Abílio Leite de Barros escreve: “Gente muito simples, pacífica, silenciosa, com uma capacidade aguda de observação, propensos mais a ouvir do que falar – uns ruminantes. Não lhes faltava inteligência, aliada a um jeito manhoso e malicioso de ver o mundo…”.
Muito diferente do que muitos pensam, ter propriedade no Pantanal não os torna “pantaneiro”. É uma condição que vai além! É uma conquista e exige um “incorporação” que alia competência, resistência e sensibilidade. Não é um lugar para especulações de terra, não é um lugar para fazer riqueza.
É um lugar imposto pelos limites da natureza, pela solidão, muitas vezes pelo abandono, mas de um glamour espiritual, altivez e galhardia forjados ao longo de 300 anos.
Não é um lugar para gente ambiciosa. Um ciclo de 30 anos contínuo de cheias, o acidente do Taquari e a reforma agrária familiar reduziram significativamente o rebanho e empobreceram a região e sua gente, exaurindo em alguns casos, a força de sobrevivência.
O novo ciclo com o “novo pantaneiro” pode trazer a riqueza e a energia que o bioma precisa, evitando áreas abandonadas, os invasores, e a vida nas casas abandonadas.
Sem gente e sem economia, a natureza padece. Mas esta retomada que já acontece pode e deve ser marcada pela evolução e transformação das tecnologias, e não do “lugar”. Vale ressaltar a fazenda São João no Pantanal norte, quando ousaram a fazer dique e controlar as águas.
Vida e pecuária, em poucos anos, sucumbiram. Outro desafio do novo pantaneiro é lidar com a falta de peões que conhecem a lida, o Pantanal!
Pior ainda é ouvir “novos peões” que oferecem soluções simplistas e equivocadas como “matar onças” para evitar predação, oferecer filhotes de araras como mimos. Eles são, de fato, mais perigosos do que qualquer bicho! O Pantanal, historicamente, recebeu todos com respeito.
Especialmente aqueles que retribuíram este respeito, não impondo sua força ou atrevimento. Manoel de Barros nos traduz, na sua competência poética, como esta relação deve acontecer: “Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. Sejam bem-vindos!