Pouco sei sobre os sentimentos femininos. Apenas sei que são construtoras de afeto. Não tenho autoridade para violar, com conceitos, esse espaço pessoal. Quando convidado, não vacilo em me nutrir destes sentimentos.
Por outro lado, tenho curiosidade em descobrir a maneira como conduzem os sentimentos e afetos de mãe e de mulher num mesmo corpo e sistema familiar, já que parecem ser condições inerentes para o estereótipo feminino da Vênus glamurosa como para a santificada Virgem Maria, presentes no imaginário das pessoas sobre a mulher e seu papel na sociedade cheia de falso pudor.
Será possível uma boa e saudável convivência destes dois aspectos inerentes a mulher e seus direitos diante do ex, dos filhos e da sociedade? É um dilema silencioso presente na vida de muitas mulheres separadas.
O que se observa é uma tolerância apenas. Poucas pessoas incentivam e apostam num novo recomeço afetivo e sexual para as almas femininas em tais situações. Talvez por preferirem manter o estereótipo da Virgem Maria por questões morais tão somente.
Apesar dos avanços nos usos e costumes e no crescimento significativo no mercado de trabalho e empresarial, parece que o inconsciente feminino não consegue se distanciar das amarras da ética moral cristã.
Isso pode provocar o conhecido sentimento de culpa freudiano, muitas vezes com repercussões na saúde mental e física, toda vez que tira a vestimenta materna e coloca o desejo de atrair e ser atraída.
É como se fosse um pecado ser mulher quando assim o desejar. Provedor ao homem e maternidade a mulher são papéis sociais milenares, porém as necessidades biológicas e afetivas não percebem como condições únicas para ambos.
A relação entre dois gêneros é tão natural como o dia e a noite. Já o prazer sensual parece um ponto fora da curva para reencontrar a felicidade em muitas sociedades conservadoras.
Apesar de situações prazerosas produzirem os bons hormônios, o fantasma do pecado começa quando termina o prazer.
Um paradoxo que atrapalha o benefício destas situações agradáveis, tanto para o homem como para a Vênus modernizada.
Não tenho noção se a mitologia forma e deforma perfis culturais, mas a respeito do coração feminino, representado pela mitologia de Vênus, cabe relembrar que é de uma mulher jovem, bonita e nua.
Como ideal de beleza, seu corpo escultural e com medidas equilibradas, é também associada ao erotismo. Conta o enredo mitológico que Vênus era muito invejada por sua beleza.
Algumas deusas estavam insatisfeitas com as reações que ela causava nos homens. Foi assim que Diana, deusa da caça, Minerva, deusa da razão, e Vesta, deusa do lar, pediram ao pai de Vênus, Júpiter, que lhe fosse concedido um casamento.
Júpiter ordenou que ela se casasse com Vulcano, o deus romano do fogo. No entanto, ele era feio e sofria de uma deficiência que o deixou coxo (manco).
Mesmo que a escolha não tenha agradado a deusa, Vênus casou-se com ele, entretanto, manteve relações extraconjugais com outros deuses e mortais. Uma das mais conhecidas é o relacionamento que teve com Marte, o deus da guerra.
Com ele, teve alguns filhos, do qual merece destaque Cupido, o deus do amor. Será que esta mitologia nos remete aos modelos atuais do papel social da mulher?
As escolhas de parceiros é um mistério ainda indecifrável. Por outro lado, as relações longevas parecem coisas da Idade Média nos contemporâneos dias hipermodernos.
Que o diga Zygmunt Bauman e sua teoria sobre as relações líquidas. Necessidade e conveniência se tornaram os novos parâmetros para a sobrevivência de Vênus e Cupido.
Apesar do namoro ser um alimento elegante para aumentar a segurança e um maior conhecimento mutuo, gradativamente foi perdendo espaço para o contato inicial pelo exercício sexual.
Contra o tesão não há solução plausível. Muito menos razões para tirá-lo da vida humana. Melhor uma boa dose de afeto então para não ficar apenas na relação erótica com cheiro de coisa proibida.
Nestes dias confusos, em que a individualidade se fortalece e o coletivo se enfraquece , as relações entre pares se torna a última fronteira das relações afetuosas civilizadas.
Esta discreta e quase imperceptível situação da mulher separada e com a guarda dos filhos, pouca gente quer discutir abertamente este direito inalienável da mulher: tornar-se Vênus toda vez que sua felicidade estiver sob ameaça. Afinal, todas elas merecem a alforria dos grilhões morais que as prendem a arcaicos conceitos sobre o direito e posse do seu próprio corpo.