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Kamikaze

O próximo governo, de oposição ou mais do mesmo, encontrará um cenário de devastação resultante da falta na defesa da economia

Luiz Fernando Mirault Pinto - Físico e administrador

O termo tem origem japonesa, referindo-se a uma fábula que descrevia um evento natural, no caso, um tufão, personificando uma divindade que teria salvado o império japonês de um ataque mongol em 1274. 

Posteriormente, foi adotado pelos americanos, em 1945, e massivamente pelos aliados, para denominar jovens pilotos japoneses de suicidas, capazes de arremessar seus aviões-bomba contra alvos inimigos, atendendo a um chamamento de operação de guerra com o sacrifício da vida em defesa da nação e do imperador, ambos representativos de símbolos a serem protegidos.

A palavra “kamikaze” volta a ser lembrada, 77 anos depois, não com o mesmo sentido, como aquele vento da redenção de uma nação ou enfrentamento de um inimigo invasor invencível, mas com a essência da destruição muito além dos protagonistas, podendo levar o Brasil à “bancarrota”. 

O vocábulo passou a ser associado – e apelidou espirituosamente em um primeiro momento – a uma proposta de emenda à Constituição (PEC), a PEC Kamikaze, pela própria equipe econômica, sendo logo após redefinida como PEC das Bondades.  

Apesar dos benefícios sociais a que ela se refere, a proposta envolve restrições legais, uma vez que vigora em ano eleitoral, acarretando um gasto além do teto previsto. 

E o governo, visando burlar as regras, decreta estado de emergência, situação que permite modificar o entendimento dos regramentos fiscais, inclusive, os constitucionais, liberando gastos não definidos para o Orçamento.  

Essa jogada eleitoreira, por isso, sem dúvida ou contestação, é uma artimanha e em si contraditória, pois se, de um lado, beneficia parte da situação financeira da sociedade, com auxílios emergenciais, vale-compras, ajudas de custo e redução de impostos, obtendo aceitação e aprovação no Congresso de todas as forças políticas, por se tratar de uma “política social”, de outro, agravará no futuro próximo (após três meses) a situação financeira dos contemplados, pois o impacto nas contas do governo na “pulverização” de R$ 41 bilhões em uma acomodação momentânea em busca de aceitação política recairá sobre a economia, na desconfiança dos investidores, na desvalorização do real, no aumento das taxas de juros, na hiperinflação e no aumento das taxas de desemprego, pela redução dos investimentos.

O próximo governo, de oposição ou mais do mesmo, encontrará um cenário de devastação resultante da falta na defesa da economia e na realização de projetos, da ausência de políticas sociais, do desprovimento das previsões dos gastos na saúde, do descontrole da dívida pública, da farra das emendas no orçamento secreto, dos gastos pessoais, da contenção de gastos nas áreas estruturais da administração, do inchaço dos funcionários comissionados e das despesas obrigatórias e pessoais. Ufa!  

Esse é o verdadeiro sentido das ações kamikazes: se, por um lado, a intenção era beneficiar parcialmente a população com “mimos”, acreditamos que foram além dos “anéis e dos dedos”, apesar das reservas internacionais amealhadas pelos governos anteriores ainda existentes, por outro lado, se o propósito foi urdido para a compra indireta de votos, o efeito kamikaze terá um resultado reverso, pois não existem garantias de que o recebimento dos auxílios surtirá na troca do intento planejado.

Na verdade, os ventos que sopram se originam das zonas de alta para as de baixa pressão, buscando o equilíbrio atmosférico natural. Metaforicamente, são oriundos daquelas lembranças que remetem a 1964, resultantes das incontroladas queimadas e da exploração ilegal da Amazônia, e aos movimentos radicais à direita, contrários aos normais, e à esquerda, que a física explica (efeito Coriollis), estes em que, em síntese, há o equilíbrio por meio da harmonização, da convivência solidária, do respeito à cidadania e aos princípios democráticos.

Previsões e estatísticas nos alertam que o lendário “vento divino” japonês (“Kami”e “Kase”), que salvou na antiguidade oriental o exército nipônico, então sujeito à derrota pelos mongóis, poderá também varrer nosso território, mas trazendo bons augúrios, salvando-nos mesmo com receio da terra arrasada e apesar dos seguidores de “mitos”, ao disseminar esperança nesses tempos de tribulações, mentiras, agressões, calúnias e injúrias, com a certeza de que, após a tempestade virá, a bonança (Mt. 10,16-23).

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