Gilberto Verardo - Psicólogo e humanista
Há coisas que a política e o político não alcançam. Se forem essenciais para a vida econômica, local e global, aí são criativos e rápidos em soluções. Se forem essenciais para a vida humana, local e global, aí não conseguimos compreender este idealismo surreal em representar as necessidades do “povo”.
De qualquer forma, o ato da escolha de representantes que vão elaborar as normas para o exercício da vida coletiva é nosso legítimo ato de direito político. Sem o exercício dos direitos políticos, as pessoas não podem ter confiança em seus direitos sociais e pessoais; sem direitos sociais e pessoais, os direitos políticos continuarão sendo um sonho inatingível, uma ficção para grande parte daqueles a quem eles foram concedidos pela letra da lei.
Se os direitos sociais não forem assegurados, os pobres e indolentes não poderão exercer os direitos políticos que formalmente possuem de uma forma independente e consciente. Perfazem uma legião de órfãos da consciência crítica.
Diante do panorama local (incêndios no bioma Pantanal, inicio de escassez hídrica, aumento da evaporação e da baixa umidade relativa do ar, etc.) e do quadro global (problemas na segurança alimentar, no recrudescimento de defesas territoriais nacionais, efeito negativo da matriz de transportes e combustíveis, 1% de bilionários controlando o poder econômico e seus investimentos, violência crescente, etc.), o que exatamente os cabos eleitorais vão oferecer de barganha para o eleitor dar seu voto aos seus candidatos?
Melhor colocar o decreto n° 4.397 de 2002, que estabelece o “Zoneamento Ecológico-Econômico (ZZE) de MS como referencial para ideias e discursos diante da realidade como um todo.
Esta norma institui critérios [desde de 2002] para sua criação e definiu o ZEE como instrumento de organização do território e suas vocações, sendo obrigatória a obediência para a implementação de planos, obras e atividades públicas e privadas. Estabelece ainda medidas e padrões de proteção ambiental, dos recursos hídricos e do solo, e a conservação da biodiversidade, garantindo o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população”.
Nós aqui em MS fazemos parte do plano global e nele estamos inseridos, queiramos ou não. Podemos ser uma ilha de excelência nos indicadores de qualidade de vida, mas está mais relacionada ao desempenho do aspecto econômico do que as perspectivas climáticas e ambientais.
Enfim, o cenário local e global gera incertezas e inseguranças para a vida do eleitor incansável em promessas de um mundo hipercolorido.
Quando percebemos, pela mídia de massa, um noticiário frequente e com ar temeroso sobre a insegurança pública e privada, há reservas sobre tão puras e nobres intenções A não ser de desempenhar o papel de replicador. A insegurança sempre existiu aqui e alhures.
Nada é mais imobilizante, existencialmente falando, do que o medo, o temor, a insegurança. São facetas da condição civilizatória que armas e guerras, fardas ou viaturas não produzem efeito algum. A não ser dar cor e forma a violência. E não adianta especializá-la, pois ela se nutre exatamente da sua cor e forma. Quase uma autofagia social e cultural.
Se alimenta dela própria. E onde isso é produzido?
“O sistema de metabolismo social do capital é um mecanismo autofágico. Sendo uma engrenagem que não possui limites para sua expansão [pois seu foco é sempre sua autovalorização], forjou-se uma variante de Frankstein social, incontrolável e destrutivo, no qual os mecanismos de interação humana são modelados essencialmente visando sua expansão. Sua letalidade se estampa nos ritmos estonteantes de devastação do trabalho, destruição ambiental, segregação urbana e degradação do mundo rural, ampliação do racismo e da opressão de gênero”.
Do livro “Trabalho, Questão Social e Serviço Social: a autofagia do capital”. Edvania A. de Souza e Maria Liduina de Oliveira e Silva (Org.). Cortez Editora. 2020.
Talvez o maior adversário nestas eleições seja o poder econômico e suas manias discretas de colocar todos sob sua batuta voraz e insaciável. A direita, a esquerda ou o centro são apenas detalhes ideológicos do seu apetite.
Acho que no fundo eles adotam aquela antiga estratégia do exército romano – “dividir para conquistar”. Será que os cabos eleitorais sabem disso ou vendem um peixe que não sabem o que é? Vendedores de ilusões?
Um dos mais surpreendentes paradoxos revelados em nossa época é que, em um planeta globalizado, a política tende a ser apaixonada e constrangedoramente local.
Pautas supralocais essenciais à vida humana, como os aumentos nos preços de grãos, fertilizantes e combustíveis debitados na guerra entre Rússia e Ucrânia, não compete a pautas locais.
Dá o que pensar sobre o papel da política local e suas eleições para representar os desejos globalizados.
Estamos todos sobre influência do capital especulativo globalizado. Seus investimentos influenciam políticas públicas, o mercado de trabalho e os preços de manufaturas, alimentos e energia. Será que influencia campanhas, discursos e candidatos?