Gilberto verardo - Psicólogo humanista
Um Campo Grande que fica nos olhando o tempo inteiro. Até a noite. Nós o olhamos inteiramente toda hora. É só acordar e começa o namoro. Estamos imersos nele, e ele, em nós. Uma boa relação entre polis, habitantes e vontade de viver bem.
Cá em baixo, no asfalto, encontram-se as necessidades comuns a todos. É um imenso exercício de convivência. Nestes 123 anos, sua forma mais charmosa é a miscigenação. Pessoas, valores, etnias, religiosidades compõem o mosaico desta troca constante, respeitosa e muito civilizada.
Pessoas e cidade amadureceram juntos. Daí o afeto de um para o outro. Uma pena sumirem com o tapete estelar. Fica lá escondido, de dia. À noite, é todo diamante, tentando cumprimentar as pessoas miscigenadas e os adoradores do pôr do sol. Mas a cidade está se esforçando para não perder o alto-astral das noites estelares.
É uma terapia mesmo. O espírito desarmado dos campo-grandenses deixa a criatividade existencial mais solta. Os padrões daqui são bastante democráticos, propiciando uma troca mais sincera, que amadurece nossa consciência coletiva. Esse é nosso melhor capital.
Agora vamos aos céus com nossas alegres, barulhentas e livres araras, que têm as duas cores da bandeira da Capital – azul e amarelo. Qual das duas nasceu primeiro, não importa. Elas são nosso símbolo que voa.
Tem também uma bicharada serelepe. Civilizou-se ou tem uma convivência educada, não vem ao caso. Mas vê-los todos os dias é uma sensação inexplicável. Um presente para o olhar cosmopolita.
Ninguém fala muito a respeito, mas o sentimento fica guardado na memória de uma fronteira respeitosa entre urbano e rural. Tudo isso sob o silêncio necessário e acolhedor das nossas árvores novas e, especialmente, antigas, que guardam uma história de terra respeitada.
Carros e pessoas, em um frenético vai e vem, dão a vida para o exercício diário desta bela cidade morena, loira, ruiva, parda, negra ou mestiça em um corpo só – o habitante de um grande campo.
Então, melhor comemorar o aniversário com o olhar sem máscara e sem preconceito civilizatório para aqueles que fazem toda a diferença no nosso espírito civilizado: nossos animais silvestres estimados.
Por isso, é quase impossível não sentir uma ponta de orgulho deles. Onde há parques, praças e reservas na cidade, eles cautelosamente foram chegando para compor nossa paisagem urbana. Muitos se achegaram por vontade própria, em detrimento da sanha predatória humana.
Outros, após se recuperarem no Cras e se acostumarem às facilidades alimentares, decidiram se juntar aos seus brothers migrantes do campo, que, de tão grande, foi emprestando espaço para o cultivo de lavouras. Com o gado já estavam acostumados, mas não com a derrubada de suas árvores preferidas e com cheiro de agrotóxico.
Muitos já são considerados urbanoides. Gostam de ser admirados. O grosso dos campo-grandenses já os tem como seus, sem ser de estimação, mas por respeito ao caráter silvestre que foi compondo nossa identidade até chegar a um respeito espontâneo e protetor. Às vezes fica até difícil conter nosso ímpeto domesticador.
Raras cidades brasileiras têm isso na sua identidade. De qualquer maneira, esses seres trouxeram a beleza do campo para esta cidade grande. Quem se aproveitou das suas multicores foram os artistas de pinturas e de música. Em vez de gaiolas, eles gostam mesmo é da possibilidade de ir voando por aí e vir voando de volta para o lugar que gostam.
Quanto aos cascudos, lambaris e piavas, entre outros minúsculos peixes que se escondem no Prosa, no Segredo e no Anhanduizinho, pouco contato visual temos. Mas não há problema algum. Sabemos que estão lá, ajudando nossos cursos d’água a manter sua originalidade.
Ainda bem que nossos órgãos ambientais são bastante solidários com o caráter silvestre e ecológico de Campo Grande. Seu trabalho é muito importante para que os bebês não venham a sentir inveja do nosso olhar de hoje no seu futuro incerto. E eles adoram bichinhos e brincar na água limpinha.
Deve ser pela pureza de espírito. Essa bela consciência campo-grandense talvez seja uma das boas heranças que deixaremos sem arrependimento algum. Mostra, além de qualidade de vida, nosso Índice de Civilidade Ambiental (ICA) (P.S.: se não existir oficialmente este tipo de índice, passa a ser uma outra característica de Campo Grande).
Afinal, um lugar que respeita sua harmonia selvagem com uma roupagem cosmopolita é quase surreal nesses tempos de queimadas mundo afora. Somos felizes aqui.