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Ladrão de virtudes

Nada de roubar virtudes da esperança e nem menosprezar os efeitos da crise climática

Gilberto Verardo - Psicólogo humanista

Penso que as instituições sociais, sob a vigilância do estado laico, estão com o dever de casa atrasado. Em particular, nas matérias de virtude e moral. Uma espécie de verniz nas atitudes e comportamentos. Antes eram iguais diamantes. 

Todos desejavam. Por agora se encontram em poucas jazidas do caráter. Não sei como desapareceram das boas práticas nas interações humanas. Talvez alguém as tenham roubado e ninguém sabe o autor do furto. 

Hoje em dia, religiões pretendem papel de guardiões da moral hipermoderna. Já quanto às virtudes, raramente sabemos sobre seu paradeiro. Se antes religião e política eram coisas distintas, nos acalorados dias de aquecimento global se tornaram irmãs siamesas. 

Pelo menos aqui no nosso Brasil varonil. Sumiram com o estado laico. Até onde se sabe, anteriormente a religião cuidava dos “pecados” humanos. Seu fundamento prático procura restabelecer os valores morais importantes para uma boa relação entre as pessoas de uma comunidade. 

Sua ação era do pessoal para refletir no coletivo. Quanto à política, sua práxis se fundamenta em um caminho inverso, qual seja, demandas pessoais agrupadas se tornam uma regra coletiva. Tem sido assim a dois mil anos pelo menos. 

Fé e virtude eram duas faces importantes do caráter humano. Atualmente, política e religião. Na Idade Média, era igreja e monarquia. Estamos regredindo?

Então, melhor ir direto ao ponto e refletir sobre o poder das religiões no poder delegado aos políticos. Por uma questão de ordem, prefiro destacar àquelas de tendência neopentecostal, por exercerem grande influência no quadro político atualmente. 

Contam com seguidores em todo o País, veículos de mídia próprios e representantes em cargos executivos e legislativos. E como chegamos a esse ponto?

A religião sempre foi um negócio rentável, mas se você quiser ser um pregador evangélico ou neopentecostal brasileiro, as chances de “ganhar na loteria celestial” são maiores, de acordo com matéria publicada na revista Forbes. 

Acrescenta ainda que algumas igrejas se tornaram negócios altamente lucrativos e fizeram com que alguns de seus líderes se transformassem em multimilionários. É a chamada “indústria da fé”.

Para muitas pessoas, a religião é uma forma de compreender e estar no mundo. Uma forma transcendente de se distanciar dos aspectos mais primitivos do gênero humano. 

Se aceitarmos esse conceito, parece indicar que a humanidade demonstra estar cada vez mais distante das respostas que procura há milênios. Vem crescendo em ritmo acelerado o número de novas religiões em todos os cantos do planeta. Qual seria o motivo?

As novas religiões costumam ter o semblante da época em que surgem. Atualmente, há uma tendência em vincular a proteção ao ambiente à espiritualidade.

No plano terreno, levantamento do Estadão/Broadcast, em setembro de 2020, constatou que entidades religiosas deviam mais de R$ 1 bilhão aos cofres da União em dívidas previdenciárias e tributárias. 

As dívidas das igrejas foram perdoadas  após a aprovação no Congresso de uma emenda incluída pelo deputado federal David Soares (União Brasil-SP), filho do pastor R.R. Soares, em um projeto de lei sobre renegociações de precatórios, o PL 1581/2020. 

No entanto, inciso 7 do artigo 5º da Constituição estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei. 

Isso inclui especialmente as lideranças religiosas. Sem dúvida, fizeram um milagre da absolvição lá pelas campinas do Congresso Nacional. O bom senso ético e moral nos recomenda que o líder religioso deve considerar a sua fé em determinada religião para não ultrapassar os seus limites, enxergar o próximo com carisma e empatia e realizar os rituais de fé com responsabilidade. Nem sempre vemos isso. As virtudes da religiosidade e da política foram roubadas. Mas, neste caso, todos sabem os autores e os mentores angelicais. Parece que o pecado do dízimo prevalece na maioria dos casos envolvendo a fé e a religiosidade dos homens de boa vontade.  

Diante de tanta fé, religiosidade e devoção embutidas na “teologia da prosperidade” contemporânea e da “indústria da fé”, devemos ressaltar que para estas eleições de 2022, o clima do planeta pede orações em forma de atitudes concretas e deixar, pelo menos por hora, soluções extraterrestres para o planeta em crise de fé ecológica. Nada de roubar virtudes da esperança e nem menosprezar os efeitos da crise climática. 

Certamente ela vai mostrar o tamanho da fé de todos os terráqueo crentes ou descrentes. Assim, pelo menos nas planícies de MS e em respeito ao bem coletivo, melhor deixar os pregadores lá em seus púlpitos, os soldados na caserna, professores em sala de aula e médicos em seus consultórios. São mais úteis. 

Também se livram do pecado da cobiça e da ganância fora de hora e de lugar. Afinal, não basta a crise climática com seus efeitos devastadores ainda por vir, devemos perder o medo de renovar nosso arsenal político. 

Afinal, diante do quadro global pouco podem fazer, a não ser criar mais mecanismos para enterrar de vez a autodeterminação do ser humano desesperançado com leis e regras coletivas que são mal regulamentadas e, por isso, desrespeitadas. Estão roubando as boas virtudes dos esperançados.

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