A imprensa (rádio e jornal), em especial a de Campo Grande (anos 1950), “malhava na tecla” da divisão do então Mato Grosso, ideia fundamentada na Revolução de 1932 (Revolução Constitucionalista), quando o gen. Klinger, então comandante da 9ª Região Militar (todo o Mato Grosso de então), se aliara aos paulistas, contra Getúlio Vargas.
Os comandantes militares de parte da mesma Região Militar, em Cuiabá, permaneceram com Vargas. Na ocasião, chegou a ser “criado” o Estado de Maracaju (com território do hoje MS) e a ser “nomeado” Vespasiano Martins como seu governador. O fato fez nascer grande rivalidade, sul x norte do então Mato Grosso.
Em minha adolescência (anos 1950), ela recrudesceu, com a Campanha pela Divisão. Ela incluía mapa do Mato Grosso de então com uma enorme tesoura cortando-o ao meio, além de passeatas (cordões, na gíria da época) em que se bradava, com entusiasmo, frases combinadas, como: “Chega de ser otário e sustentar funcionário” e “Só a divisão acaba com a exploração”. Eram comuns as “gozações”, como: “Ruas de Cuiabá permitem aperto de mão entre os que estão em calçadas opostas”.
A população de Cuiabá lutava contra a divisão, abominava a ideia e até a temia. Seus líderes políticos conseguiram “esfriar” o movimento. Para surpresa do próprio sul, Mato Grosso do Sul é criado (Lei Complementar Nº 31, de 11 de outubro de 1977) e implantado a partir de 1º de janeiro de 1979.
Há poucos dias estive em Cuiabá, visitando parentes, os quais me trataram com especial carinho.
Ao atentar, hoje, para detalhes de Cuiabá e de seu povo, faço reverência e confesso que me envergonho do procedimento entusiasta em minha adolescência, convencido de que Cuiabá, ao torcer contra a divisão, em verdade trabalhava contra si, pois, na verdade, foi beneficiada pela tal “derrota”. Esta é, sem dúvida, seu troféu.
Nós chamávamos suas ruas de “vias do aperto de mão”, por isso ser possível estando as pessoas em calçadas opostas. Agora vejo seu Centro Histórico, belíssimo monumento à sua memória arquitetônica preservada com zelo cívico, de visual colorido que, de tão agradável, é poético. Quisera eu me postar em uma de suas calçadas e saudar, com um aperto de mão, na outra calçada, cada um dos seus nobres e artísticos urbanistas. Sabedoria que nem assim me redimiria de minha incivilidade no passado. Isto me valeria dizer um “muito obrigado”, por terem me doado tal visual.
Suas belas avenidas, inteligentemente traçadas e de trânsito disciplinado, rivalizam com as de Curitiba, a qual eu admitia como a única capital brasileira a ter tal mérito. O “troféu à estupidez em urbanismo” (para ser ameno no adjetivo), o traçado que seria “leito” de seu metrô de superfície, “prêmio” ao seu acatamento à Copa do Mundo de Futebol 2014, ainda a atormenta. Seu pecado foi ser de boa-fé. Não lhe cabe dolo. Dá nos olhos, e dói, em quem acessa a cidade, ao sair do aeroporto, ver “aquilo”. Convoque seus (suas) próprios (as) urbanistas, elite que achará “uma saída”, se já não a tem na mente, capazes, como poucos, que são.
Observe-se que, em matéria de aeroporto, Cuiabá supera muitas de nossas capitais e, em muito mais, Campo Grande. A Rodoviária de Cuiabá nos humilha, cidadãos de Campo Grande. Cuiabá, quem admitia existirem em seu solo os raladores de guaraná, ao balanço da rede, tomou guaraná, como de seu hábito, e nem rede viu. Queixou-se desta “falha” aos parentes que o hospedaram com tanto carinho e ouviu como resposta: “Aqui não se tem tempo para isso”. Mensagem entendida.
Até em supermercado a atenção é destacável. Perguntei a uma senhora que tinha no uniforme a frase “posso ajudar” do local para “escanear” documento e enviar por e-mail. Ela completou: “Lan house? Não temos”, e, em seguida, disse “indagação de cliente é ponderada aqui. Assim veio a Loteca, por exemplo”. Observei eficácia e elegância da PM de Mato Grosso. Fazia eu minha “corridinha rústica matinal”, quando uma viatura da PM passou por mim e me advertiu: “Moço [gentileza], use um traje de melhor visual”.
A lista de cuiabanos eruditos inclui: Cândido Mariano da Silva Rondon; d. Aquino Correia; Maria Constança de Barros Machado e Manoel de Barros (estes muito vinculados a Campo Grande). Some-se os modernos. Meus queridos primos e povo de Cuiabá, eu os saúdo, com uma “ponta” de inveja.