Assistimos estarrecidos nas últimas semanas perdas preciosas de vidas humanas em situações de absoluta miserabilidade. Um descaso cruel e sem definição para alcançar a omissão dos nossos gestores públicos e da sociedade civil organizada, que também tem o seu grau de culpa nesse triste espetáculo.
As vítimas incautas na Capital e no interior do Estado não suportaram o frio intenso e tiveram suas vidas subtraídas, pelo descaso com que o seu igual interpretou a sua vulnerabilidade.
Falácia das grandes e engodo dos piores as desculpas apresentadas para evitarem a tragédia anunciada. Ninguém vive nas ruas por vontade própria. Motivos diversos empurram homens e mulheres, jovens e crianças, para essa vida de descrença no ser humano, sentimentos ultrajados, dignidades vilipendiadas e ainda do caos que teima em não ter o seu fim.
Não era para ser assim. O nosso estado está na linha de frente do agronegócio. Tem uma força de produção incrível. Os nossos municípios são entes federados privilegiados por contar com um segmento produtivo que também gera bens e riquezas que fomentam todos os anos o crescimento do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Mas a roubalheira do dinheiro público é algo avassalador e cega os que têm a responsabilidade pela feitura e pela prática das políticas públicas na área social, algo imperdoável.
O belíssimo editorial do Correio do Estado do dia 16 remete-nos à essa certeza incontestável. As 54 linhas daquele texto lavrado com a pena notável do seu editor-chefe dispensa qualquer comentário. Parabenizou o Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul por estar na linha de frente dessas investigações que castigam impiedosamente o erário público. Um indicador precioso.
Mas o tema central é o sofrimento das pessoas que perdem suas vidas antes do seu prazo final em razão da intensidade do frio que não conseguem suportar, máxime quando hoje temos um serviço de meteorologia que prevê alterações climáticas com antecedência razoável.
Nesse contexto, resulta pavoroso suportar a displicência. Ela nos remete a viver em um estado de indignação íntima permanente. Nem mesmo Joseph Stalin, tido como um dos mais sangrentos ditadores da Europa Oriental, cometeu essa atrocidade contra seus inimigos, os soldados alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, que não conseguiram tomar Moscou em razão do inverno rigoroso que conspirava em seu desfavor. Não conheceram a morte como prisioneiros pelo frio intenso.
A dignidade humana foi respeitada. Esse é um detalhe precioso para uma reflexão profunda.
Essas linhas não têm endereço certo para apontar a autoria dessas omissões criminosas.
Não é essa a intenção. A consciência de cada qual e os propósitos sempre magnânimos do conjunto da sociedade podem formatar as ações concretas para mitigar as dores dos que sofrem por falta de cama, teto, comida, saúde, trabalho e salário justo e descortinar um mundo de encanto e beleza esplendorosa para os que já não têm mais força nem conseguem visualizar essa certeza de valor inexorável.