Nos últimos anos, houve um aumento na atenção e na conscientização sobre conhecidos problemas em relação à diversidade e à inclusão de populações pouco representadas na pesquisa clínica.
Grande parte do trabalho e da discussão sobre diversidade se concentrou nas questões em torno da diversidade racial, étnica e de gênero binário (homem/mulher), mas há muitos outros aspectos da diversidade que também precisamos considerar.
Para incluir adequadamente todas as comunidades na pesquisa clínica e responder a importantes questões que afetam toda a sociedade também precisamos garantir que a área seja acolhedora e inclusiva para pessoas de todos os gêneros, orientações e identidades sexuais.
Infelizmente, as estruturas tradicionais de estudos, os modelos que usamos para protocolos, os documentos de consentimento e os dados que coletamos geralmente são projetados de formas que não atendem às necessidades e aos dados demográficos específicos da população LGBTQIAPN+, principalmente quando falamos de grupos minorizados dentro da própria comunidade.
Deixar de coletar informações sobre identidade de gênero e orientação sexual significa que podem haver outras doenças, condições e fatores de risco que podem ser um problema significativo nessa comunidade e que, dessa forma, permanecerão desconhecidos.
Ainda, que estamos perdendo a oportunidade de aprender sobre como as intervenções ou os tratamentos podem ter eficácia diferente em pessoas LGBTQIAPN+, o que é relevante nas tomadas de decisões individuais e nos esforços de acesso equitativo à saúde pública.
Uma questão básica e que deve ter atenção especial acontece durante a fase inicial da pesquisa, na qual devem ser pensadas as perguntas sobre identidade de gênero, por exemplo.
Afinal, estamos falando também de homens e mulheres trans, não somente da mulher e do homem com o sexo atribuído ao nascimento. A diversidade, a equidade e a inclusão devem estar contempladas em todas as fases do processo.
Para isso acontecer, temos de ter pessoas que pensem de maneira mais ampla a diversidade, a equidade e a inclusão nessas etapas.
A inclusão nas considerações de cuidados de saúde para pessoas transgênero também é essencial.
Por exemplo, homens transgêneros – aqueles atribuídos ao sexo feminino no nascimento – podem ter doenças ginecológicas, como a endometriose e o câncer de colo de útero (ambas frequentemente mal diagnosticadas), enquanto mulheres transgênero – aquelas atribuídas ao sexo masculino no nascimento – podem precisar de exames regulares de câncer de próstata e câncer anal.
Pequenas, mas pontuais alterações nos protocolos clínicos, nos documentos de consentimento e nos formulários de coleta de dados podem resultar em grandes avanços, permitindo a análise dos dados de forma a entender e a tratar melhor as necessidades de saúde dessa comunidade, tornando os estudos mais acolhedores e inclusivos, a fim de que as pessoas que fazem parte da sigla LGTBQIAPN+ se sintam confortáveis e seguras para participar dessas pesquisas.
Por fim, deixo uma provocação. Eu, como gerente médico, homem cisgênero e gay (ou seja, integrante da comunidade LGBTQIAPN+), se não estivesse aqui, em uma posição que traga essa discussão dentro do ambiente de trabalho e da pesquisa clínica, com um certo conhecimento das dificuldades enfrentadas pelas pessoas trans, se não trabalhasse na área médica ou se trabalhasse com qualquer outro assunto, essa reflexão sobre a pesquisa clínica seria levada em consideração?
É necessário pensar, discutir e interiorizar as discussões de diversidade, equidade e inclusão (DE&I) dentro das empresas. Essa é uma real necessidade e abrirá portas para um futuro mais justo, equitativo e com saúde para todos.