Asala dos professores. Local par excellence de troca de vivências, conhecimentos e práticas metodológicas cujo escopo é sempre o contínuo aprendizado; ofício-mor de todo aquele ou aquela que se entrega à missão do magistério.
Certo momento, veio à tona a condição de saúde de um querido e dedicado professor que padece de diabetes.
Na tentativa de achar um responsável (reiterada e inconscientemente, estamos sempre em busca de um culpado para as nossas aflições, ainda que sejam as estrelas), uns seguiram pela senda de que é possível evitar, ou mitigar, certas patologias que nos acompanham na jornada da vida por meio de uma boa alimentação ou exercícios físicos. Outros, mais realistas ou pessimistas – julgue o leitor como melhor aprouver – expuseram seus pontos de vista dizendo que, se por um lado escapamos da diabetes, por outro somos pegos silenciosamente por algum famigerado tumor ou qualquer outra doença que o valha.
Do canto da sala, atento ao debate, observava certo professor de Filosofia, receoso de dar sua opinião por talvez não olvidar o que acontecera na famosa Alegoria da Caverna platônica quando um prisioneiro libertou-se dos grilhões que o mantinha preso no fundo da caverna e voltou para dizer o que encontrara do lado de fora.
Mas então, como forma de antídoto corajoso, algum daimon interior soprou-lhe aos ouvidos aquelas mesmas palavras saídas da boca de Cícero, conhecido e notável filósofo, advogado e político romano do século I a.C.: “Nada é tão absurdo que não possa ser dito por um filósofo.”
Disse o professor aquilo que, no foro mais íntimo, todos o sabem de uma maneira ou de outra por mais árduo que seja admiti-lo: a vida gasta-se a si mesma qual metal que oxida ou ar que se torna mais rarefeito quão mais alto for a altitude e a doença, seja ela qual for, é apenas o pedágio cobrado, ainda que tardiamente, pelo maravilhoso passeio na estrada da existência.
Alguns o olharam com esgar, outros aquiesceram cerrando as pálpebras em clara demonstração de concordância; todos, inclusive o próprio professor de Filosofia, refletiram que talvez o verdadeiro remédio para os males que mais cedo ou tarde hão de nos alcançar, seja a vida e o trabalho vividos coletivamente, com uma boa pitada de esperança e alegria e uma alta dose de compaixão e ajuda ao próximo.
Quando deram por si, o mal-estar relativo ao assunto já havia passado e riam alienadamente por conta de uma espirituosa resposta dada previamente por um aluno em sala de aula.