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Morte e vida das cidades

Enquanto tomo o primeiro gole do café de manhã, a televisão noticia mais um sequestro relâmpago de uma dona de casa, quando chegava das compras em um supermercado distante de onde mora. Enquanto aguardava o portão eletrônico da garagem abrir, ela foi surpreendida dentro do carro, em plena luz do dia.

A caminho do trabalho, ouço pelo rádio que a cidade está assustada com o aumento significativo de furtos residenciais, alguns com violência física. Com o jornal em punho enquanto abro a porta do escritório, leio a manchete da capa, que dava conta do isolamento noturno do centro da cidade. Apesar de revitalizado, persiste o submundo de crimes. Inicio mais um dia com a certeza de que virão notícias de inúmeros acidentes no trânsito, assaltos, roubos de carros e outros delitos. Fato ou exagero da tinta carregada da mídia, dando cor e preferência a esse tipo de manchete?

A violência que gera a insegurança urbana, sem dúvida, está cada vez maior, e devemos reconhecer a complexidade de suas causas. As mais citadas envolvem aspectos econômicos e sociais – a tão decantada má distribuição de renda, que gera desigualdades. Entretanto, a insegurança urbana também encontra explicações na maneira como estamos – arquitetos e urbanistas e dirigentes públicos, cada um na sua competência – construindo e gerindo os espaços das nossas cidades.

Refiro-me ao rastro da degradação de diversos ambientes urbanos deixado por grandes projetos de urbanização, realizados em grande parte para beneficiar o automóvel, distante da escala humana e negando calçadas. São viadutos, grandes avenidas, áreas simplesmente gramadas, tidas como praças. Junto a novos bairros, surgem ruas confinadas entre muralhas dos limites frontais dos lotes, o que se assemelha a vielas medievais. São resultados do medo lá de fora que nos isolam em muros, nos autoalienando da cidade.

Assim, não é surpresa nenhuma não conhecermos nossos vizinhos, mal os cumprimentando em raros encontros. Digo mais: as ruas silenciosas, vazias e sem vida, que quando não utilizadas por humildes trabalhadores à procura de pequenos serviços transformam-se em território de ninguém, ficando ainda mais inseguras.

Com esse quadro desolador de espaços segregados é impossível não me recordar de Jane Jacobs, uma nem tão pacata senhora moradora do bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Ela liderou uma mobilização nos anos 1950 para proteger seu bairro contra um grande projeto do tipo “arrasa quarteirão”, para renovação urbana de Manhattan com construções de viadutos, elevados e vias expressas. Jornalista autodidata, Jane embrenhou-se nessa luta para analisar as práticas urbanísticas da época, relatando o que observava no cotidiano das principais cidades americanas. Aquilo que provocava violência, sujeira e abandono ou, por outro lado, o que gerava segurança, manutenção e qualidade dos lugares. Suas anotações resultaram o livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, considerado marco do urbanismo da segunda metade do século 20.

Suas ideias defendiam a diversidade urbana em contraposição à separação das atividades cotidianas. Ao contrário de setorizar as regiões da cidade por atividades específicas (lugar de morar, consumir, trabalhar, estudar, se divertir, etc.), interligadas por grandes avenidas, sua receita consistia, por exemplo, em misturar os usos residenciais com comércios locais, escritórios, instituições culturais e de entretenimento, etc. Com caminhadas curtas, poder-se-ia ir ao trabalho, à padaria ou até ao açougue, passar pela esquina e, quem sabe, encontrar conhecidos. Assim, as ruas dos bairros encontravam seus guardiões, com gente nas calçadas durante o dia todo, evitando lugares ermos. Para ela, cidade viva e segura é quando as pessoas ocupam as ruas. 

Seu livro, enfim, aponta para um conjunto de princípios que ainda caem como uma luva para a atual prática do planejamento urbano. Caso aplicados nos dias de hoje, aquela dona de casa, em vez de ter sido sequestrada, estaria acenando serenamente para a vizinha logo em frente, enquanto conversava com a outra do mesmo lado da calçada, ainda com o portão da garagem aberto...

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