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O preço da desigualdade

Ficamos entre os 20 piores países em Matemática e Ciências e entre os 30 piores em Leitura

Saiu mais um resultado do Pisa, o exame que avalia o desempenho de jovens de 15 anos em 80 países. Desde a primeira edição em que participamos, em 2000, ele tem sido como um tapa na cara periódico na nossa incapacidade de elevar o nível de escolarização dos nossos jovens.

Ficamos entre os 20 piores países em Matemática e Ciências e entre os 30 piores em Leitura. Ou seja, a maioria dos jovens brasileiros não sabe calcular o porcentual de probabilidade de um fato ocorrer, não sabe como as vacinas funcionam (e se funcionam) e não saberá identificar as ideias principais deste texto.

É um desastre que só não foi pior no último período de avaliação (2018 a 2022) graças à ação de alguns prefeitos e governadores que compreenderam a necessidade urgente e permanente de compensar, na escola, a desigualdade que a história provocou e que a pandemia agravou ainda mais.

A publicação dos resultados do Pisa funciona também como um gatilho para as acusações ideológicas de sempre, envolvendo a “educação Paulo Freire”, o “agora faz o L”, e as “estultices” do gênero.

Tudo isso ocorre sem saber – porque não são só os jovens que não têm noção de matemática – que o único período em que tivemos uma melhora nos resultados do Pisa em Matemática foi entre 2003 e 2012. Mas, mesmo assim, tudo ficou bem longe de ser o bastante.

Como disse, a questão não é ideológica, como se a eficácia no aprendizado dependesse de um método “de direita” ou “de esquerda”; também não é um problema de competência dos professores, embora a precariedade da formação docente seja uma bomba-relógio de efeito catastrófico no médio prazo.

A questão principal reside em como superar a desigualdade estrutural que afasta crianças dos livros, da tecnologia, da cultura global, da alimentação de qualidade, do tempo de estudo de oito horas diárias, das aulas de reforço, do aprendizado da língua inglesa, do estudo paciente, persistente e profundo da Matemática e das ciências, da leitura de jornais, revistas científicas e da literatura, incluindo muita literatura.

Como afastar as crianças dos afazeres domésticos extenuantes e do trabalho precoce? Como aproximá-las da arte, da música, do cinema, do teatro e da filosofia?

Essas são condições sem as quais as exigências de conhecimento situado exigidas nas avaliações do Pisa produzirão sempre resultados pífios, demonstrativo de como conseguimos, geração após geração, contaminar de maneira indelével o solo tão fértil da nação, produzindo desertos sem fim.

A solução para o governo federal é buscar seguir os bons exemplos. O atual governo pareceu entender essa lógica, ao trazer o governador do Ceará para o Ministério da Educação. Esses bons exemplos precisam ser estudados e replicados, com alocação de recursos e investimento na formação de pessoal qualificado.

Além disso, é fundamental direcionar o foco para o efetivo aprendizado dos jovens, dando a eles ferramentas, tempo, alimentação, afeto e espaço adequados para que possam prosperar em suas potencialidades.

Quando o Pisa revela que apenas 1% dos jovens brasileiros está no topo da pirâmide do aprendizado em Matemática enquanto 43% dos jovens de Singapura ocupam essa posição, entendemos o tamanho da estrada a ser percorrida.

Países sem uma grande tradição e com recursos limitados, como a Irlanda ou a pequenina Estônia, têm conseguido resultados extraordinários com mudanças nas posturas governamentais.

Eles transformaram os esforços para educar os jovens em políticas de Estado, para além das acusações patéticas e infrutíferas (além de mentirosas) sobre nossas universidades públicas, pesquisadores e docentes.

O foco desses países está na criação de um legado do qual, um dia, enfim, possamos nos orgulhar. 
Como já disse o poeta, “a lição, nós sabemos de cor. Agora só falta aprender”.

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