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Poço sem fundo

Segundo matéria publicada no Correio do Estado no dia 28 de dezembro, o prédio projetado pelo arquiteto Rubens Gil de Camillo para ser uma rodoviária no governo Pedrossian, em 1991, no governo do ex-prefeito Nelsinho Trad foi apresentada uma adaptação do edifício, com projeto elaborado pelos arquitetos da CIA Arquitetura, Inácio Nessimian e César Fernandes. Eu era militante da cultura de Campo Grande e professor da UFMS. 

O prédio da original rodoviária teve um embate entre André Puccinelli e Pedrossian. Lá era área de preservação ambiental.

O governo Pedrossian passou o trator, mandou fazer o projeto, começou a obra, deu o nome de Terminal Euclides de Oliveira (em homenagem a um dos mais importantes engenheiros da cidade), mas a obra ficou inacabada.

Quando era prefeito, André mandou multar a obra, cujos valores inviabilizariam sua retomada. Ela ficou parada por anos. Muito material de lá foi roubado. Eu mesmo a visitei inúmeras vezes antes, durante e depois. 

Depreciada e sem condições, Nelsinho lança a nova rodoviária onde está atualmente (um equívoco urbanístico) e lança o Centro de Belas Artes. Começando pelo nome, o processo foi errado. Adaptar uma rodoviária de planta semicircular a um prédio cultural exigiu gastos enormes de tempo e de dinheiro.

No estágio em que o edifício se encontra, a supracitada matéria informa que os gastos seriam de mais de R$ 8 milhões, podendo ser muito mais. Ou seja, esses recursos públicos já seriam suficientes para erguer um fabuloso edifício cultural para Campo Grande.

Na prática, em arquitetura, adaptar prédios é sempre uma tarefa difícil e cara. Os espaços projetados para ônibus serão adaptados para pessoas e arte. A conta vem. E com o tempo de 32 anos, a cidade continua brigando para ter mais espaços públicos culturais, e as ofertas são sempre assim. 

A cultura precisa ser prioridade pública. Sem educação e cultura não há sociedade, e sem sociedade não há vida urbana nem humana. Sendo assim, o poço sem fundo da obra do Centro de Belas Artes, indicada que vai ser retomada, é mais um risco.

Esse risco não vale a pena. Recursos públicos escassos cada vez mais precisam de mais prioridade. A administração municipal tem enorme responsabilidade com a produção cultural. Campo Grande é de uma riqueza enorme nesse campo, mas, no tempo, os eventos cobrem a produção e a formação. 

Um centro de cultura municipal é algo necessário e prioritário, mas, antes de mais nada, precisa ser colocado em ordem de desejo de todos. Convidar a sociedade organizada para discutir talvez seja um importante caminho.

O Fórum e o Conselho de Cultura da sociedade, a Comissão de Cultura da Câmara, o Tribunal de Contas, enfim, o Ministério Público, todos em uma roda, toma-se uma decisão mais acertada. Que assim aconteça. Torço pelo sucesso do empreendimento, desde que seja acertado.

 

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