A educação é, como é de conhecimento comum, uma das principais bases para o desenvolvimento de uma sociedade. Além de sua função mais óbvia, que é proporcionar conhecimento, ela também molda o caráter e o potencial de cada indivíduo. Por conta disso e de outros fatores, todo investimento e estímulo no estágio inicial da vida de uma criança não apenas as prepara para o sucesso dentro do ambiente escolar, mas contribui para a formação de cidadãos responsáveis e capazes de enfrentar desafios complexos.
Resultado de anos de estudo, a equação Heckman, do professor James Heckman, da Universidade de Chicago e Nobel de Economia em 2000, tem mostrado que a qualidade do desenvolvimento na primeira infância – do nascimento até os 6 anos de idade – influencia fortemente os resultados econômicos, sociais e na saúde, não só para os indivíduos assistidos, mas para toda a sociedade.
Heckman, uma das maiores referências no tema, tem demonstrado que há significativos ganhos econômicos a serem obtidos com o investimento em desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Para cada dólar investido na primeira infância, o ganho pode chegar a US$ 7. Seus estudos e de um grupo de profissionais multidisciplinares também apontam para um melhor desempenho acadêmico, maiores taxas de conclusão escolar e melhores resultados de empregabilidade futura.
Pesquisas neurocientíficas, por sua vez, revelam que o cérebro humano passa por mudanças significativas nos primeiros anos de vida, tornando a primeira infância um período crítico para o desenvolvimento cerebral. Reuven Feuerstein, renomado psicólogo e educador judeu israelense, dedicou sua vida ao estudo do desenvolvimento cognitivo e à criação de métodos eficazes de ensino. Sua teoria da modificabilidade cognitiva estrutural (MCE) destaca que a inteligência não é fixa, mas, sim, maleável e suscetível a melhorias significativas ao longo da vida. Isso é particularmente relevante na educação infantil e principalmente na primeira infância, quando o cérebro está em constante desenvolvimento.
Investir atenção e recursos neste período significa oferecer às crianças um ambiente rico em estímulos, interações significativas e oportunidades de aprendizado. Feuerstein argumentava que a mediação, ou seja, a intervenção de adultos na promoção do desenvolvimento cognitivo, é fundamental para maximizar o potencial da população infantil. Portanto, educadores, pais e cuidadores desempenham um papel vital nesse processo.
No Brasil, a compreensão da importância da primeira infância avançou de forma considerável há sete anos, com a promulgação da lei que estabeleceu um marco legal. Desde então, os investimentos federais para políticas públicas voltadas aos primeiros seis anos de vida contam como prioritários na Lei de Diretrizes Orçamentárias, o que tem levado a um aumento nos investimentos públicos nesta área. No entanto, de forma ainda modesta e em um ritmo aquém do ideal.
Divulgado no início de setembro, o relatório “Education at a Glance” mostra o Brasil como um dos países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que menos investe em Educação Básica, ficando atrás apenas de México e África do Sul, desde meados dos anos 2010. Os investimentos públicos brasileiros por aluno na Educação Básica equivalem a um terço dos gastos dos países ricos nessa etapa. O cálculo envolve todos os recursos públicos destinados à educação pública, divididos pelo total de matrículas no Ensino Fundamental e no Ensino Médio.
Além disso, a última Pnad Contínua constatou que, em 2022, cerca de 5,6% da população brasileira com 15 anos ou mais não sabia ler ou escrever. Pensemos: qual o resultado disso se adicionarmos os impactos negativos causados pela pandemia?
Investir na Educação Básica, com especial atenção à primeira infância, não é apenas uma questão de desenvolvimento individual, mas também um meio eficaz de reduzir as desigualdades socioeducacionais. Ao nivelar o campo de jogo desde o início, podemos contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária, em que o potencial de cada indivíduo é reconhecido e desenvolvido, independentemente de sua origem socioeconômica.
Em um país continental como o Brasil, cuja história remonta a séculos de disparidades nas oportunidades socioeducacionais, a sociedade civil e as entidades privadas desempenham um papel essencial. Como profissional da educação, assumi e sigo firme no compromisso de utilizar essa ferramenta tão poderosa para impactar realidades e, acima de tudo, futuros.
Os números de investimentos públicos mostram que o caminho está sendo trilhado, mas de forma tímida. A conta não fecha, e mais esforços são necessários para que construir de forma sólida os alicerces sobre os quais tudo será formado. Boas ideias, cidadãos comprometidos e, principalmente, seres humanos com sólida autoestima para “fazer e acontecer” passam por uma primeira infância plenamente vivida e assistida.
Quem está comigo nessa?