Todos se queixam de que a vida está acelerada. Todo santo dia é a mesma coisa, aquela correria que invade a olhar sem pedir licença, acomodando-se em nossa alma sem a menor cerimônia.
Os dias voam, mesmo não tendo asas. As horas se dissipam feito fumaça de cigarro, levando os momentos que dão forma, cor e sentido à nossa jornada por esse vale de lágrimas.
E o trem descamba de vez quando nos aproximamos dos dias em que as cortinas de mais um ano que se despede se fecham, sem deixar ao menos um bilhetinho de despedida sobre a mesa.
Nesses dias, o coração bate mais forte, o suor corre em um passo frio pelos sulcos rasos do nosso rosto, desejoso de se tornar um caudaloso rio.
E nesse açodamento de querer fazer um não-sei-o-quê que toma conta do nosso ser, acabamos ficando indiferentes ao amor, insensíveis à dor dos nossos semelhantes, apáticos diante da realidade que invade a nossa vista, impassíveis perante a nossa própria humanidade, indolentes diante da majestade de Deus e, sem nos darmos conta, terminamos por nos alienar de nós mesmos.
Para que não nos precipitemos no abismo de uma vida esvaziada de propósito pela voracidade da hiperconectividade, para que os frutos pútridos desses tempos turbulentos que testemunhamos não venham se aninhar em nossa alma, urge que tenhamos paciência. Sim, paciência não é tudo, mas é imprescindível.
Aliás, a Sagrada Família de Nazaré nos ensina a sermos pacientes. Se meditássemos sobre isso com a devida atenção e com a indispensável devoção, compreenderíamos com clareza que grande parte das aflições que nos apoquentam não são dignas de tamanha preocupação.
Muitas das nossas inquietações não têm a urgência que atribuímos a elas. Da mesma forma, inúmeras outras coisas que deveriam estar no centro da nossa atenção não estão.
Queixamo-nos, frequentemente, de tudo e todos, mas poucas vezes dizemos um “eu te amo” para quem precisa ouvir essas palavras. E raras vezes paramos para ouvir, atentamente, o que os outros têm a nos dizer, mas queremos porque queremos ser ouvidos por Deus e por todos, como se fôssemos o centro de toda a criação.
Enfim, a vida é simples, tão simples quanto a manjedoura que recebeu Deus, o Deus que se fez pequenino para nos mostrar o caminho, a verdade e a vida, para nos resgatar do abismo de nós mesmos.