Opinião

EDITORIAL

Carne de primeira, conduta de terceira

A carne que alimenta o mundo não pode sair de frigoríficos sustentados por estruturas frágeis e comportamentos questionáveis, como o que mostramos nesta edição

A exportação de carne bovina é um dos pilares mais sólidos da economia brasileira. Ano após ano, ela contribui significativamente para o superavit da balança comercial, reforçando o papel do País como uma potência mundial na produção de proteína animal. Com mercados exigentes como a China, os Estados Unidos e a União Europeia entre os destinos dos nossos produtos, o Brasil ocupa lugar de destaque na cadeia global de abastecimento alimentar.

Mato Grosso do Sul é parte essencial dessa engrenagem. Boa parte da carne bovina produzida e exportada pelo País é abatida em frigoríficos do Estado, os quais há décadas consolidam uma expertise no setor agroindustrial. A pujança do campo sul-mato-grossense está nos números e também na modernização do setor, que investe em qualidade, sanidade e tecnologia.

Entretanto, nem tudo nesse cenário é motivo de aplauso. Embora o setor frigorífico tenha, nos últimos anos, melhorado consideravelmente a sua imagem, ainda há práticas que resistem ao tempo e comprometem a reputação da indústria. É o caso, por exemplo, de empresas que acumulam dívidas milionárias, entram em recuperação judicial, deixam uma fila de credores à espera e, logo adiante, ressurgem sob uma nova razão social – ou com um novo CNPJ, mas no mesmo endereço, e muitas vezes com os mesmos controladores.

Aqui em Mato Grosso do Sul, essa prática é recorrente. Esta edição escancara um exemplo desse paradoxo: um frigorífico que deve milhões a produtores, ex-funcionários e à União, dividindo o mesmo espaço físico com uma empresa que se apresenta ao mercado como uma das três maiores do Brasil em volume de abates.
Essa lógica é insustentável em tempos de consumidores cada vez mais atentos e exigentes. 

A rastreabilidade da carne, a sustentabilidade da produção e, sobretudo, a ética dos agentes envolvidos são aspectos que ganham crescente importância. É inaceitável que, enquanto o Brasil exporta carne de qualidade, ainda importemos práticas empresariais que flertam com a fraude e a impunidade.

O agronegócio brasileiro é, sem dúvida, um motivo de orgulho. A ascensão do setor é merecida e deve ser louvada, por seu impacto econômico, social e tecnológico. Mas é preciso dizer: a grandeza de um segmento também se mede por sua capacidade de corrigir falhas, abandonar velhas práticas e assumir responsabilidades. Não basta ser gigante na produção, é necessário ser íntegro na conduta.

A carne que alimenta o mundo não pode sair de frigoríficos sustentados por estruturas frágeis e comportamentos questionáveis. O Brasil que queremos exportar precisa também refletir o Brasil que queremos construir internamente – ético, justo e comprometido com as regras do jogo.

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