Há números que, quando revelados, não apenas surpreendem – eles escancaram uma sensação incômoda que já pairava no ar. São dados que não vêm para contrariar, mas para confirmar o que os olhos mais atentos já vinham percebendo: algo andou para trás. Não se trata de achismo ou exagero. É a realidade nua e crua, reforçada por estatísticas que dispensam interpretação enviesada.
Esse é o caso da cobertura de ciclovias em Campo Grande. Durante muitos anos, a cidade ostentou com orgulho uma posição de destaque no cenário nacional. Era vanguarda, referência entre as capitais brasileiras quando o assunto era mobilidade urbana sustentável.
A malha cicloviária, extensa e proporcionalmente adequada à população, colocava Campo Grande na dianteira de um movimento que se espalhava pelo País.
Há aproximadamente 15 anos, a cidade figurava entre as capitais com a maior extensão de ciclovias, um exemplo de planejamento urbano que conciliava qualidade de vida, saúde pública e respeito ao meio ambiente. Hoje, infelizmente, esse cenário é apenas uma lembrança.
Como mostra a reportagem publicada nesta edição, os números atuais são desanimadores. A extensão das ciclovias encolheu. E pior: Campo Grande passou a ser superada por cidades do interior de Mato Grosso do Sul.
Esse encolhimento é mais que um dado técnico – é o retrato de uma década marcada pela paralisia nos investimentos urbanos. A Capital parou no tempo, enquanto outras localidades, com menos recursos e visibilidade, avançaram. Faltou continuidade, vontade política e, sobretudo, visão de futuro.
As ciclovias não são apenas faixas pintadas no asfalto: são instrumentos de transformação urbana. Elas incentivam o uso de transportes alternativos, reduzem a emissão de gases poluentes, promovem a saúde da população e tornam as cidades mais humanas e menos dependentes de veículos motorizados. Trata-se de um investimento com retorno garantido – econômico, social e ambiental.
É lamentável constatar que a cidade estagnou justamente em um dos quesitos que deveriam estar no centro das discussões sobre o futuro das cidades. Em tempos de crise climática, saúde fragilizada e mobilidade comprometida, virar as costas para as ciclovias é perder uma chance preciosa de evoluir como sociedade.
Ainda há tempo para retomar o caminho.
Mas isso exigirá mais que discursos e promessas: será necessário resgatar a ambição de ser exemplo, de liderar pelo bom senso e de pedalar com coragem rumo ao futuro. Campo Grande merece – e os ciclistas também.