A prática da ceva de animais silvestres é proibida no Brasil – e, naturalmente, em Mato Grosso do Sul. Ainda assim, ela persiste de forma clandestina, alimentada por um misto de ignorância, descaso e conveniência. Recentemente, essa prática voltou aos holofotes após a morte trágica de um caseiro atacado por uma onça-pintada no Pantanal, a poucos metros de um pesqueiro onde, segundo autoridades, havia indícios recorrentes de ceva.
É impossível ignorar a conexão direta entre o comportamento da fauna e as ações humanas. Oferecer alimento a animais selvagens rompe o delicado equilíbrio do ecossistema e os condicionam a buscar comida fácil, mesmo em áreas habitadas, o que aumenta exponencialmente o risco de ataques. No caso do Pantanal, trata-se do maior predador das Américas: a onça-pintada, um ícone da biodiversidade brasileira que, quando provocada ou atraída, age por instinto.
O ataque que chocou o mundo todo precisa ser compreendido como consequência, e não como exceção. A proposta de endurecer as penas para quem praticar a ceva surge em resposta direta a esse episódio. Em parte, cumpre um papel educativo importante e pode, sim, contribuir para prevenir novas tragédias. Por outro lado, soa como oportunismo legislativo – uma reação emocional a um fato grave, sem o necessário distanciamento para análise eficaz da política pública a ser implementada.
Pergunta-se: esse é o melhor momento para propor uma lei punitiva? Talvez não. O calor do momento pode comprometer o debate racional. O ideal seria que a comoção não ditasse os rumos da legislação, e sim um plano sério e permanente de fiscalização ambiental. Afinal, não é de hoje que a ceva ocorre em áreas pantaneiras. Há cinco anos, denúncias foram feitas exatamente na região do ataque recente. Houve alguma punição? Alguma ação concreta?
Enquanto os holofotes da imprensa iluminam o caso, muito se fala em soluções. Mas é justamente quando os holofotes se apagam que a fiscalização costuma falhar. E é aí que mora o perigo. A proteção da vida humana e da fauna não pode ser casuística. Precisa ser sustentada por políticas contínuas, investimentos em fiscalização e campanhas de conscientização que cheguem até quem vive e trabalha nas áreas de risco.
Oferecer comida a animais selvagens é um ato de irresponsabilidade grave. Eles deixam de caçar, perdem o medo do ser humano e passam a encará-lo como fonte de alimento. Isso não só põe em risco quem vive no entorno como também compromete a integridade do animal. Ao torná-lo dependente da ação humana, corremos o risco de nos tornarmos uma presa.
O episódio no Pantanal é um alerta. Não é hora de legislar com pressa, mas de agir com firmeza. O que se espera do poder público é menos reatividade e mais permanência: na fiscalização, na educação ambiental e na proteção de quem vive junto à natureza. Afinal, tragédias assim não devem ser repetidas – nem esquecidas.