A ruptura da trégua entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) deve acender um alerta máximo entre as forças de segurança pública de Mato Grosso do Sul. O Estado, que faz fronteira com países produtores de cocaína e serve como corredor estratégico do narcotráfico, abriga atividades de ambas as facções – as duas maiores e mais perigosas do Brasil.
O fim da aliança entre elas pode trazer consequências imediatas e violentas, e cabe às autoridades agir com rapidez e inteligência para que essa disputa não atinja quem nada tem a ver com a criminalidade.
De acordo com os serviços de inteligência, o PCC ainda mantém predominância em Mato Grosso do Sul, mas o Comando Vermelho, mesmo em menor escala, segue ativo e bem armado.
E não apenas isso: um dos seus principais líderes, Marcinho VP, está custodiado no presídio federal de Campo Grande, o que aumenta a sensibilidade do território estadual diante de movimentações da facção. Embora o sistema penitenciário federal imponha restrições severas, não se pode subestimar a capacidade de articulação desses grupos, inclusive de dentro das celas.
A disputa que se anuncia entre CV e PCC não é meramente por pontos de venda ou controle territorial local: trata-se da retomada de uma guerra por rotas internacionais de tráfico, especialmente a de cocaína, que atravessa o território sul-mato-grossense em direção aos grandes centros e portos do Brasil. Durante o período de trégua, as facções atuavam em consórcio, dividindo os lucros do tráfico e diminuindo os confrontos armados. Agora, com o pacto desfeito, o cenário tende a mudar – e para pior.
O que mais preocupa é o risco de essa guerra entre facções transbordar para as ruas das cidades, afetando a população civil. A história recente do País mostra que, quando esses grupos entram em conflito, o preço é pago por inocentes: ataques a ônibus, execuções por engano, toques de recolher e clima de medo.
Mato Grosso do Sul, embora não tenha experimentado episódios com tamanha intensidade como outros estados, não está imune, e a hora de agir é agora.
O momento exige vigilância reforçada, integração entre as polícias e o fortalecimento das ações de inteligência. Mas não só. O Estado brasileiro precisa urgentemente avançar em uma resposta estrutural à atuação interestadual dessas organizações.
Nesse sentido, ganha força o debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que prevê a criação de uma força policial de atuação nacional, com competência para enfrentar o crime organizado com o mesmo alcance que ele tem.
O recado é claro: as autoridades de segurança precisam deixar as divergências políticas de lado e trabalhar em uníssono para proteger a população. A criação de uma polícia com atuação interestadual – e que se comunique de forma efetiva com os estados – é um passo necessário para enfrentar um inimigo que opera sem fronteiras. Essa polícia está prevista na PEC da Segurança Pública.
O crime organizado não respeita limites geográficos nem hierarquias institucionais: atua onde há lucro e onde encontra brechas.
Mato Grosso do Sul está na linha de frente dessa batalha. Proteger suas fronteiras, seu povo e sua paz social é responsabilidade compartilhada entre União, Estado e municípios. E isso exige mais do que reações pontuais: requer planejamento, estratégia e união. O crime avança quando o Estado hesita, e o povo não pode continuar refém dessa guerra.