Opinião

EDITORIAL

CPIs: entre o palco e a mudança real

Sejam elas em Brasília ou em Campo Grande, CPIs bem conduzidas podem ser agentes de mudança. Precisam, para isso, de parlamentares comprometidos

As Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) costumam despertar atenção por seu potencial midiático e por oferecerem aos parlamentares envolvidos uma vitrine privilegiada. Porém, é preciso lembrar que sua capacidade de gerar punições na esfera penal é bastante limitada. CPIs não são tribunais, e sim instrumentos políticos de investigação com poderes típicos de investigação legislativa, cujo objetivo maior é produzir impacto público e provocar mudanças.

As finalidades das CPIs são, via de regra, três: dar visibilidade aos parlamentares que delas participam; expor os fatos investigados à sociedade, dando publicidade ao que muitas vezes se desenrola nas sombras; e, talvez a mais importante, forçar gestores públicos e agentes políticos a mudarem condutas diante da pressão popular. O sucesso de uma CPI, portanto, raramente se mede por prisões ou condenações, mas pela sua capacidade de colocar o problema na vitrine e catalisar transformações.

Nesta edição, abordamos duas CPIs: uma em nível federal e outra em nível municipal. A primeira está em fase de instalação no Congresso e deve apurar os descontos indevidos sofridos por aposentados do INSS. A outra, já em andamento, investiga o transporte coletivo urbano em Campo Grande, um tema sensível e historicamente marcado por insatisfação popular.

A CPI dos descontos no INSS ainda não começou formalmente, mas o escopo que se desenha é promissor. A prática de descontos ilegais, muitas vezes realizados por associações e entidades sem qualquer autorização expressa dos beneficiários, tem afetado uma parcela extremamente vulnerável da população: os aposentados. A instalação da comissão pode lançar luz sobre um esquema que, além de injusto, compromete a dignidade de quem depende integralmente desses recursos.

Já a CPI do Ônibus, em Campo Grande, vinha sendo criticada por sua morosidade e falta de efetividade. Até agora, suas reuniões vinham sendo pouco produtivas, com escassa repercussão. A sessão de ontem, no entanto, marcou uma virada: informações relevantes foram expostas, como o número expressivo de ônibus operando em situação irregular e a ausência de transparência nos dados da concessão do transporte. Espera-se agora que os vereadores não se contentem com o papel de espectadores e passem a agir com o protagonismo que a função exige.

É importante, porém, manter o senso crítico. CPIs devem ser vistas sempre com um filtro atento. Elas podem ser instrumentalizadas para fins eleitoreiros, podem se perder em disputas políticas internas ou terminar em relatórios que não geram qualquer consequência prática. Mas, ao mesmo tempo, o que sobrevive ao filtro – as informações coletadas, os depoimentos, os dados revelados – pode ser valioso demais para ser ignorado.

Sejam elas em Brasília ou em Campo Grande, CPIs bem conduzidas podem ser agentes de mudança. Precisam, para isso, de parlamentares comprometidos não com o próprio marketing, mas com a missão de esclarecer os fatos e pressionar por soluções. A sociedade, por sua vez, deve cumprir o papel de acompanhar, cobrar e exigir que o resultado vá além das manchetes.

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