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Bebês reborn: uma reflexão

Daniel Medeiros - Doutor em Educação Histórica

Em um voo sobre o Pacífico, o avião que levava o zeloso funcionário de uma empresa de entregas, Chuck Noland, cai, e ele é o único sobrevivente. Passa anos em uma ilha deserta e sobrevive de cocos e peixes, além do que conseguiu salvar de várias das encomendas que levava e que o ajudaram a estabelecer um kit mínimo de civilidade em meio a toda aquela natureza hostil. Apenas uma encomenda ele mantém intacta, com uma imagem de asas de anjo na embalagem, como lembrança de que o compromisso é a única forma de fazer o futuro existir. 

Um dos pacotes trazia uma bola de vôlei. Em uma tentativa de fazer fogo, o desajeitado engenheiro de sistemas fere a mão e, enfurecido, pega a bola e a joga longe. Algum tempo depois, recupera a bola e desenha um rosto na marca de sangue que ficou impressa nela. “Nasce” Wilson, o parceiro simbólico que, ao longo da jornada, impediu o náufrago de enlouquecer naquele ambiente que ignorava solenemente a sua humanidade – e que poderia levá-lo, ao fim, também a esquecê-la.

Anos transcorreram e, aos poucos, Noland vai se acostumando às exigências da ilha, desenvolvendo habilidades que garantem alimento e abrigo. Mesmo assim, algumas vezes ele pensou em desistir e pôr fim à própria vida. As conversas com Wilson, porém, ajudaram-no a suportar a solidão e a manter sua integridade mental, o que foi fundamental para suportar a passagem do tempo e os esforços do dia a dia, até que ele conseguisse reunir materiais para construir uma jangada e aproveitar a estreita condição climática que permitiu superar a rebentação da praia de corais e se aventurar em alto-mar, em busca do milagre de um encontro com outros homens.

Em um determinado momento, em meio a uma tempestade, a jangada quase se desfaz, mas nosso herói sobrevive. Exausto, dorme profundamente e não percebe que Wilson se desprende da jangada e se afasta dela. Despertado por uma baleia, Noland percebe que o amigo havia sumido e, quando o avista, já está muito distante. Em desespero, pula na água e tenta salvá-lo, mas é tarde. Difícil não se emocionar com a cena da perda daquele que o acompanhou nos anos torturantes da solidão e que aplacou, com a sua presença cálida e atenta, seus piores pensamentos. Sem dúvida, Noland devia a vida a Wilson, que agora iniciava uma jornada própria, na imensidão do Pacífico.

Enfim, o náufrago acaba resgatado por um cargueiro, volta para casa, descobre que sua esposa havia se casado com o seu dentista (triste ironia, pois um dos seus momentos mais dolorosos na ilha fora uma terrível dor de dente) e que a existência se abria agora para ele em um novo tipo de solidão. Calejado pela experiência fantástica que havia vivido, Noland parte em busca de uma nova vida, porque havia aprendido que viver significa, necessariamente, implicar-se na vida uns dos outros – nem que esse outro tivesse sido uma bola de vôlei antropomorfizada ou um pacote fechado, cujo compromisso de devolver alimentava a esperança de estar vivo para cumprir sua tarefa.

Hoje discutimos com certo rancor e mesmo algum desprezo as chamadas mamães de bebês reborn. Ao falar sem qualquer condescendência dessas pessoas, parece que só o que procuramos é exaltar nossa “normalidade” diante da “loucura” que está tomando conta do mundo, sem considerar que essa “loucura” não é outra coisa senão um clamor por humanidade, aconchego, intimidade, compartilhamento sem hierarquizações ou contrapartidas obrigatórias. Se preferirmos usar o nosso tempo para condenar pessoas, para julgar sem piedade, para falar sem ouvir, para cancelar sem a paciência de buscar compreender, serão as bolas Wilson que nos restarão para garantir a necessária busca por afeto e compartilhamento – que é, em última instância, o que nos faz humanos.

Se na solidão imposta por uma sociedade narcísica, mais interessada em se afastar dos outros para figurar sozinha no topo do pódio, buscamos o acolhimento e a compaixão do mundo artificial, dando bom dia para a Alexa ou dizendo muito obrigado ao ChatGPT, isso diz mais sobre quem só enxerga o poder ou o sucesso na diminuição dos outros do que sobre quem recorre a um bebê de silicone para fugir da solidão e garantir um espaço de humanidade fundamental para continuar dando sentido a essa experiência frágil e maravilhosa que (ainda) chamamos vida.

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