A disputa pelo controle da regulação de vagas hospitalares entre a Prefeitura de Campo Grande e o governo do Estado de Mato Grosso do Sul ganhou mais um capítulo. O leitor terá mais detalhes deste embate institucional nas páginas seguintes, mas o que já é possível afirmar com clareza é que o que está em jogo vai muito além de questões técnicas ou logísticas. Trata-se, na essência, de uma disputa por poder e dinheiro.
No universo da gestão pública, controlar a regulação de leitos significa, na prática, decidir quem será internado, quando e onde. Para os gestores, é uma posição de força, pois representa ter influência sobre os fluxos de atendimento e sobre os recursos que envolvem cada internação. A cada paciente encaminhado, há cifras em jogo, contratos em execução e, claro, visibilidade política.
Enquanto os órgãos públicos trocam acusações e disputam atribuições, o que sobra para a população é o ônus dessa ineficiência. Para quem está na ponta aguardando uma cirurgia ou uma vaga em UTI, a discussão entre prefeitura e Estado não passa de mais um motivo para o sofrimento se alongar. São famílias inteiras presas a uma fila que, muitas vezes, não anda – e, quando anda, é por força de indicações políticas pontuais.
É lamentável constatar que, do alto da burocracia, muitos gestores parecem enxergar o cidadão que aguarda por atendimento apenas como um número. As pessoas que estão sofrendo nas filas públicas de saúde não são vistas como pacientes em situação de vulnerabilidade, mas como estatísticas. Ou pior: como potenciais votos nas próximas eleições.
Aliás, esse é outro problema crônico dessa disputa: o uso político da regulação de vagas. Não é raro ver vereadores, deputados e até assessores de parlamentares comemorando a conquista de um leito como se fosse um favor pessoal. Para as famílias beneficiadas, é claro, fica a sensação de gratidão. Mas é importante lembrar: garantir vaga para quem precisa é uma obrigação do poder público, e não um presente concedido por benevolência política.
A saúde pública é uma das áreas que mais consome recursos do orçamento estadual e municipal. Talvez por isso haja tanto interesse em controlar suas engrenagens. Infelizmente, nem sempre esse interesse vem acompanhado de compromisso com a eficiência, a equidade ou a sensibilidade social que a situação exige.
É preciso que os gestores públicos, de todas as esferas, tenham a coragem de colocar a população acima das disputas políticas. A saúde não pode continuar sendo palco para estratégias eleitorais nem moeda de troca em negociações de bastidores. Enquanto essa realidade não mudar, o preço continuará sendo pago, todos os dias, por quem mais precisa do serviço público: o povo.