Em meio aos muitos problemas já conhecidos do transporte público de Campo Grande, existe um capítulo que continua passando despercebido até mesmo pelos vereadores que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para investigar o sistema: o das vítimas de acidentes envolvendo a operação do transporte coletivo. Seja por atropelamentos, colisões ou outros incidentes relacionados à circulação diária dos ônibus, centenas de cidadãos e suas famílias convivem com as consequências desses episódios – e sem qualquer tipo de proteção ou respaldo imediato.
É inaceitável que uma atividade de natureza pública, com circulação nas ruas quase 24 horas por dia, sete dias por semana, não conte com um seguro específico ou, ao menos, com um fundo de contingência para amparar financeiramente as vítimas de acidentes. A ausência dessa cobertura transfere o custo humano e financeiro desses sinistros diretamente para a população, principalmente a mais pobre, que recorre ao Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento de ferimentos físicos e emocionais.
O resultado dessa lacuna é uma verdadeira enxurrada de ações judiciais. Usuários, motoristas, motociclistas e proprietários de veículos particulares acabam levando seus casos à Justiça, na tentativa de garantir algum tipo de indenização. Processos que, não raro, arrastam-se por anos, com decisões que demoram a sair e que, muitas vezes, nem chegam a ser cumpridas em sua totalidade.
O histórico recente do Consórcio Guaicurus reforça essa negligência. Em um passado não tão distante, a empresa foi multada justamente por não honrar o pagamento de um seguro obrigatório. Nem a penalidade, nem a obrigação de criar um mecanismo de proteção às vítimas foram suficientes para mudar a realidade. A falha permanece, e a responsabilidade sobre os danos causados pelo sistema de transporte continua sendo empurrada para as costas dos cidadãos.
Enquanto isso, a Câmara Municipal, por meio da CPI, segue focada em temas como planilhas de custo, qualidade da frota e contratos de concessão. Sem desmerecer a importância dessas pautas, é preciso lembrar que, por trás de cada número ou cláusula, existem pessoas reais, com histórias de sofrimento que exigem respostas mais rápidas e humanas.
Ignorar as vítimas de acidentes provocados ou relacionados à operação do transporte coletivo é um erro grave. A cidade precisa de uma solução estruturada e urgente. A criação de um fundo de indenização, um seguro coletivo ou qualquer outro instrumento jurídico que garanta assistência imediata às vítimas deveria ser parte central do debate sobre o futuro da mobilidade urbana em Campo Grande.
É lamentável que até agora nem os operadores do sistema, nem os órgãos de fiscalização e muito menos os vereadores responsáveis pela CPI tenham olhado com atenção para essa ferida aberta. As vítimas do transporte coletivo merecem, no mínimo, respeito e reparação digna. Negar isso é aprofundar ainda mais a crise social que o próprio sistema de transporte já produz diariamente.