Opinião

EDITORIAL

A inadimplência e os limites do crescimento

O uso do crédito bancário e do cartão de crédito como complemento de renda se tornou, infelizmente, uma prática comum entre milhares de brasileiros

Nesta edição, mostramos um dado preocupante: quase 500 mil pessoas em Mato Grosso do Sul estão com o nome negativado nos bancos. É um número expressivo, que representa cerca de um quinto da população do Estado, e que evidencia uma fragilidade estrutural na saúde financeira das famílias sul-mato-grossenses.

O cenário poderia ser melhor, especialmente após a execução do programa federal Desenrola, lançado no ano passado, que ofereceu condições especiais para renegociação de dívidas, com descontos e parcelamentos acessíveis. A expectativa era de que milhares de consumidores saíssem da lista de inadimplentes, mas os números mostram que o impacto, ao menos por enquanto, foi insuficiente.

Ter meio milhão de pessoas com dívidas em atraso significa mais do que um problema individual. Trata-se de um fator que limita o consumo interno e, consequentemente, inibe o crescimento econômico sustentável. Quando uma parcela tão grande da população está com o crédito comprometido, o comércio, os serviços e até o setor industrial sentem os reflexos.

É verdade que a economia de Mato Grosso do Sul tem crescido acima da média nacional, puxada principalmente pelos investimentos externos e pelos bons resultados da balança comercial. O agronegócio e a indústria da celulose têm garantido saldo positivo, movimentando divisas e ampliando o Produto Interno Bruto estadual. No entanto, esse crescimento, embora importante, não tem sido acompanhado por um fortalecimento consistente do mercado interno.

O Estado poderia crescer ainda mais se a dinâmica de consumo das famílias fosse mais saudável e se a taxa de poupança das pessoas fosse maior. Uma população com menos dívidas e mais capacidade de compra alimenta o ciclo virtuoso da economia, gerando mais renda, emprego e arrecadação.

A explicação para esse alto nível de inadimplência passa por um problema macroeconômico que não pode ser simplificado pondo a culpa apenas no consumidor. O uso do crédito bancário e do cartão de crédito como complemento de renda se tornou, infelizmente, uma prática comum entre milhares de sul-mato-grossenses e de brasileiros. Isso é um claro sintoma de que a renda média da população não é suficiente para cobrir os custos básicos de vida.

Enquanto o poder de compra das famílias não for recuperado de forma estrutural, o ciclo da inadimplência continuará se repetindo, com impactos negativos tanto na vida das pessoas quanto no desempenho econômico do Estado. É papel de governos, empresas e instituições financeiras encontrar soluções mais duradouras para o problema. Não se pode tratar a inadimplência como um fenômeno isolado, mas como um reflexo direto de um modelo de desenvolvimento que ainda precisa ser mais inclusivo e equilibrado.

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