Não existe poder absoluto – e todos os seres humanos, especialmente os que ocupam cargos públicos, deveriam ter isso como premissa básica de conduta. A história mostra que, sem freios éticos, o poder seduz, distorce a percepção da realidade e leva seus detentores ao autoengano: a ideia equivocada de que podem tudo, sobre todos, o tempo todo. Quando isso acontece, surgem os abusos, os excessos e, frequentemente, a humilhação do outro.
É importante lembrar que cargos públicos são transitórios, e a autoridade neles conferida deve ser exercida com responsabilidade, equilíbrio e respeito. A facilidade com que o poder se transforma em instrumento de opressão exige vigilância constante daqueles que o exercem. Não é porque alguém ocupa uma cadeira no parlamento que lhe é permitido ultrapassar os limites da civilidade.
Neste espaço, registramos um episódio lamentável ocorrido na Câmara Municipal de Campo Grande, durante os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o transporte coletivo da Capital, a CPI do Ônibus. O vereador Maicon Nogueira (PP) protagonizou uma cena de desrespeito que envergonha o Poder Legislativo e ofende o bom senso.
Durante o depoimento de João Resende, ex-presidente do Consórcio Guaicurus, já aposentado e com mais de 80 anos, o vereador agiu como um inquisidor – e não como um representante do povo comprometido com a busca da verdade. Ainda que o consórcio esteja no centro de reclamações legítimas sobre a qualidade do transporte, nada justifica a postura de afronta e humilhação dirigida a uma pessoa idosa, que poderia, inclusive, ser seu pai ou avô.
Em vez de conduzir uma oitiva com firmeza, mas também com respeito, Nogueira optou pelo confronto hostil. Pressionado de forma desmedida, João Resende terminou o depoimento chorando. Espera-se que o vereador tenha, ao menos, refletido sobre o que fez. Aquele momento não dignificou nem o Legislativo nem a própria CPI – e muito menos ajudou a esclarecer os reais problemas do sistema de transporte coletivo.
Ressaltamos que a cobrança por melhorias e por respostas deve existir, e os ex-gestores do sistema precisam, sim, ser responsabilizados se comprovadas as falhas. Mas a urbanidade, o decoro e a empatia não podem ser atropelados. É fundamental que a Mesa Diretora da Câmara reveja a condução dos trabalhos e não se cale diante de atitudes indecorosas.
O poder que o povo concede a seus representantes deve vir acompanhado de maturidade e respeito. Quando isso é esquecido, o que sobra não é autoridade – é autoritarismo. E este, como já sabemos, jamais leva a avanços verdadeiros. O que se espera de um vereador é altivez, não arrogância. É firmeza, não truculência. Que sirva de lição.