Opinião

EDITORIAL

Crime organizado: discurso só não basta

O crime organizado se alimenta da omissão, da burocracia e do medo. Enfrentá-lo exige coragem, e essa coragem precisa vir acompanhada de ação concreta

É preciso dar um basta no crime organizado. Essa frase, repetida em discursos oficiais, campanhas eleitorais e rodas de conversa, já se tornou quase um consenso nacional. Mas a pergunta que insiste em ecoar no vazio é: quem terá, de fato, a coragem de fazê-lo? Falar é fácil. Agir exige determinação, estratégia e, sobretudo, vontade política real.

Na segurança pública, temos visto exemplos diários de bravura de policiais, delegados, promotores e agentes que, mesmo sem as condições ideais, enfrentam o poder paralelo do tráfico e das facções. Mas também há, em certos escalões de comando, uma atitude de conformismo que beira a hipocrisia. Quando se reconhece a gravidade de um problema, mas se opta por medidas tímidas ou pela omissão, isso tem um nome: conveniência.

A complacência institucional diante do crime organizado é uma afronta à sociedade e aos próprios operadores da lei. Como entender, por exemplo, que apenas o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Federal estejam à frente das investigações mais incisivas contra facções como o PCC? Onde estão, no Estado, os núcleos especializados do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, da Polícia Civil e da Polícia Militar capazes de enfrentar com efetividade a expansão dessas organizações criminosas?

Como mostra reportagem nesta edição, Mato Grosso do Sul abriga nada menos que mil integrantes do crime organizado. É um número alarmante. Não se trata de uma suspeita: trata-se de uma constatação com base em investigações sérias. O Estado virou corredor de escoamento de drogas para o restante do Brasil e para mercados internacionais, como a África e a Europa. A geografia nos colocou nesse caminho, mas a resposta institucional continua difusa, tímida e, em alguns momentos, silenciosa.

É desconcertante perceber que o poder público não oferece aos seus servidores as condições – e a retaguarda institucional – para enfrentar esse inimigo. A coragem individual, por mais nobre que seja, não pode substituir o respaldo coletivo que deveria vir do alto escalão, com planejamento, estrutura, inteligência e proteção. Enquanto isso não acontece, o crime se fortalece com armas, recursos e influência, inclusive política.

Mas o enfrentamento ao crime não é responsabilidade apenas do Estado. A sociedade também precisa participar de forma mais ativa. É possível – e necessário – criar mecanismos que envolvam comunidades, escolas, igrejas e entidades civis na construção de uma cultura de legalidade. Apoiar o combate ao crime não pode se restringir a enquetes ou pesquisas de opinião. Precisa se materializar em atitudes, mobilização e pressão por políticas públicas consistentes.

É hora de sair do discurso. O crime organizado se alimenta da omissão, da burocracia e do medo. Enfrentá-lo exige coragem, e essa coragem precisa vir acompanhada de ação concreta, tanto do Estado quanto da sociedade. O consenso já temos. O que falta, agora, é a prática.

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