É louvável e necessária a atuação firme do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) em Bonito, um dos maiores símbolos do turismo ecológico do Brasil. A região, conhecida mundialmente por suas águas cristalinas e belezas naturais únicas, não pode continuar sob ameaça de setores que, em nome do lucro rápido, degradam o que há de mais valioso por ali: o próprio meio ambiente. A ofensiva do MPMS é mais que uma ação jurídica, é um alerta civilizatório.
O que acontece em Bonito lembra, com precisão preocupante, a fábula da “Galinha dos Ovos de Ouro”. Nela, um casal de camponeses, insatisfeito com o lucro diário de um único ovo de ouro, mata a galinha em busca de mais. Descobre, tarde demais, que por dentro ela era igual a todas as outras. Assim, perdem tudo. A metáfora serve bem para os que hoje exploram o turismo e o agronegócio da região com pouca ou nenhuma responsabilidade ambiental. Ao degradarem nascentes, desmatarem áreas sensíveis ou contaminarem cursos d’água, estão matando, pouco a pouco, a “galinha” que garante o desenvolvimento local.
É um erro acreditar que se pode maximizar o ganho imediato com o prejuízo do futuro. A lógica predatória de alguns produtores e empresários não só põe em risco o equilíbrio ambiental, como ameaça diretamente a principal fonte de renda da cidade: o turismo ecológico. Se Bonito perder seu maior diferencial – a natureza preservada –, perderá, também, sua capacidade de atrair visitantes, investimentos e, no limite, qualidade de vida para seus próprios moradores.
O MPMS age corretamente, não apenas porque faz um bem à população local e ao Brasil, mas porque cumpre seu dever constitucional de defesa do interesse público. Quando o MPMS promove ações contra desmatamentos ilegais, embargos de áreas degradadas ou responsabilização de agentes poluidores, está apenas fazendo o que se espera de uma instituição republicana: proteger o bem coletivo contra interesses privados nocivos.
Causa espanto, no entanto, a omissão de tantas outras instituições que, em vez de se posicionarem com clareza, optam por um discurso vazio de sustentabilidade. A Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems), ao lado de entidades como a Lide, aparece em eventos e campanhas com discurso verde, mas, na prática, pouco faz para impedir abusos e apoiar efetivamente ações de preservação. Em muitos casos, a sustentabilidade virou apenas uma peça de marketing, descolada da realidade das pressões ambientais que Bonito sofre.
Ser sustentável exige, em primeiro lugar, combater o que não é sustentável. Significa enfrentar interesses poderosos, fiscalizar, denunciar, mudar práticas e rotinas. A sustentabilidade começa por ações concretas e difíceis, como abrir mão de lucros imediatos para garantir ganhos permanentes. Só depois disso é que cabem as campanhas, os discursos, os selos e os eventos. Quando a ordem é invertida, o que se faz é apenas disfarçar o problema, e não resolvê-lo.
Bonito não pode virar um estudo de caso de irresponsabilidade ambiental. Não podemos aceitar que o mesmo destino de tantos outros paraísos naturais ameaçados pelo avanço cego da economia aconteça também ali. A hora de agir é agora – e que mais instituições sigam o exemplo do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, antes que o último “ovo de ouro” seja posto e já não haja mais “galinha” para garantir o amanhã.