O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tem, com certeza, o maior banco de dados do Brasil. Nele, aparecem milhões de informações detalhadas sobre trabalhadores, empregadores, vínculos empregatícios e remunerações. Este banco de dados é tão completo, que não é exagero afirmar que o INSS sabe mais sobre a gente do que a gente mesmo, uma vez que toda a vida profissional dos brasileiros está registrada em seus arquivos e, em um simples clicar de dedos, é possível saber com exatidão todo o passado de qualquer trabalhador. E exatamente por conta disso é que deveria ser tratado como a “menina dos olhos” por qualquer governante.
Mas o recente escândalo, que revelou o desvio de bilhões de reais da conta de aposentados e o impressionante crescimento da fila de espera por benefícios, mostra que é tratado com explícito desprezo. Reportagem publicada pelo Correio do Estado ontem mostra que 38,5 mil pessoas estão à espera da concessão de algum benefício em Mato Grosso do Sul. O número é 106% maior do que os 18,6 mil que estavam nessa mesma fila em dezembro do ano passado.
Atualmente, 18,3 mil trabalhadores estão à espera da concessão do benefício por incapacidade, mais conhecido como auxílio-doença. Metade delas espera há mais de 45 dias. Ou seja, são trabalhadores afastados das empresas, que literalmente estão sem renda porque o comando do INSS não dá conta de cumprir sua missão básica.
É evidente que não se trata de defender a concessão de benefícios sem o máximo rigor, já que o INSS lida com dinheiro público e gasta muito mais do que arrecada. Então, é necessário que se utilize o pente mais fino possível antes da concessão de qualquer benefício.
Porém, ao que tudo indica, não é o rigor ou o cuidado com o dinheiro público que têm alongado a fila de espera. Especialistas do setor ouvidos pelo Correio do Estado não têm dúvida de que se trata da falta de estrutura do próprio Instituto, e falta de organização.
Em outras palavras, ao que tudo indica, a existência da fila e o seu assustador crescimento são resultado da incompetência governamental, pois somente isso explica a histórica falta de servidores e a incapacidade para que aqueles que estão em atividade tenham produtividade maior. Historicamente, governantes fazem vistas grossas aos supersalários pagos a determinadas categorias de servidores públicos. Normalmente, quanto maior o salário, menor a importância do servidor público no dia a dia dos cidadãos comuns, como é o caso daqueles que estão na fila da previdência.
No serviço público federal, o INSS possivelmente é o órgão de maior relevância e abrangência do País. Há em torno de 25 milhões de pessoas que recebem algum benefício, e cerca de 61 milhões que contribuem. Por conta disso, não deveria haver a menor dúvida de que, por conta do seu alcance, os servidores deveriam ser os primeiros na escala das atenções dos governantes. Mas, pelo fato de estes servidores lidarem com cidadãos comuns, também são normalmente tratados como se fossem de segunda linha.