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O custo invisível do progresso

Demorei para perceber os critérios utilizados por aqueles que lucram sem critério. Sempre acreditei que trabalhar era, antes de tudo, agregar. Nunca ofereci a alguém algo que não fizesse sentido. Nunca empurrei promessas que eu mesma não sustentaria. E, por muito tempo, achei que isso era o normal. Não era.

Vivemos em um mundo que se indigna com a corrupção visível: a dos políticos, dos cargos, dos escândalos, mas convive com naturalidade com uma corrupção muito mais íntima: a das promessas descabidas que aceitamos todos os dias.

Promessas de atalhos. De soluções rápidas. De melhorias que dispensam tempo, processo e verdade. Reclamamos de quem mente no alto, mas nos deixamos seduzir por mentiras pequenas, confortáveis, cotidianas. E chamamos isso de escolha.

O mercado aprendeu cedo que não é preciso resolver problemas.

Basta convencer alguém de que tem um.

E, a partir daí, oferecer alívio temporário, nunca solução.

Porque a solução liberta e a dependência fideliza.

Isso acontece no consumo. Na estética. Na medicina. Na ideia de sucesso. Até na forma como lidamos com o próprio corpo. Criou-se uma lógica em que o excesso é chamado de cuidado, a repetição vira tratamento e o círculo vicioso é apresentado como acompanhamento.

O que realmente agrega: tempo, pausa, critério, simplicidade, escuta, e tudo isso costuma ser escondido. Porque não brilha. Porque lucra menos. Porque devolve autonomia.

Talvez eu tenha demorado para “acordar” porque, dentro dessa lógica, fui bem-sucedida.
Houve prosperidade, reconhecimento e validação externa. Financeiramente, meu trabalho funcionou, e funciona. Mas isso não torna o sistema mais saudável. Apenas o torna mais eficiente em se manter.

O ponto não é pessoal. É estrutural. A inteligência, a tecnologia e o trabalho poderiam estar orientados para melhorar radicalmente a experiência humana e reduzir sofrimento real, ampliar bem-estar, respeitar o tempo biológico, preservar a autonomia.

Todavia, grande parte desse potencial é usada para manter movimento, não para gerar transformação. Para ocupar, não para libertar. Para convencer, não para cuidar.

Talvez o verdadeiro progresso não esteja em consumir mais, fazer mais ou prometer mais. Mas em usar o que já sabemos e já somos capazes de fazer: com responsabilidade ética! Nem tudo que pode ser vendido precisa ser comprado. Nem tudo que pode ser feito precisa ser feito. E nem toda promessa merece crédito.

Se o trabalho, a tecnologia e o conhecimento estivessem mais comprometidos com necessidades reais e menos com carências fabricadas, o mundo seria não apenas mais eficiente, mas muito mais habitável. O resto é ruído.

 

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