O general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), vice na chapa de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência, afirmou nesta segunda (17) que famílias pobres "sem pai e avô" e com "mãe e avó" são "fábricas de desajustados" que fornecem mão de obra ao tráfico.
Durante palestra em São Paulo, ele relacionou o que considera dissolução da família tradicional à ação de defensores de "agendas particulares que tentam impor ao conjunto da sociedade". Esse é um argumento recorrente dos críticos da união homossexual.
"A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, é mãe e avó. E, por isso, torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narcoquadrilhas."
Mourão pregou então investimentos em saúde, segurança e infraestrutura do Estado, para combater a presença do crime nas favelas. Ele fez as considerações para uma plateia francamente simpática, a julgar pelas perguntas e manifestações, na seção paulista do Secovi, o sindicato do mercado imobiliário.
"Se polícia age como polícia, é criticada. Direitos humanos são para os humanos direitos", disse, sendo aplaudido.
Nas declarações políticas que deu, por sua vez, Mourão acentuou o mal-estar já existente com membros do círculo próximo de Bolsonaro.
Acabou marcando uma visita discreta ao presidenciável, para amainar ânimos, no hospital Albert Einstein (São Paulo), onde o candidato se recupera de um ataque a faca.
Antes, havia dito que a suspeita sobre a lisura da eleição devido à ausência de voto impresso, lançada por Bolsonaro em vídeo gravado no domingo (16), tinha de "ser relevada".
"O homem quase morreu há uma semana, passou por duas cirurgias graves. O cara está fragilizado. Temos de relevar o que ele disse. O jogo é esse, e vamos jogar e ganhar no primeiro turno", afirmou.
Descartou contestar eventual derrota. "Quem vencer, venceu, afirmou a jornalistas.
Sua movimentação não agrada muitos no PSL e na família do presidenciável.
O Secovi havia promovido debate com outros presidenciáveis, mas neste caso a agenda era exclusiva de Mourão, assim como palestra na Associação Comercial paulista prevista para esta terça (18).
Mourão já havia irritado os filhos e aliados do presidenciável ao sugerir que poderia substituir o deputado em agendas públicas e debates.
Mourão minimizou divergências. "O candidato é Bolsonaro, eu sou só seu apêndice", afirmou, dizendo que a participação em debates será uma decisão do presidenciável que, aliás, precisa ser chancelada pelos adversários.
Ao mesmo tempo, disse que teria "outras funções" além de ser vice, citando coordenação de projetos e uma curiosa coincidência com o rival PT. "Temos de ter outros meios de comunicação [que não a mídia tradicional] para buscar a ponta da linha", disse.
Apontou infiltração comunista entre militares do país vizinho como a origem da ascensão do chavismo, que descartou por aqui. "O Brasil jamais virará uma Venezuela porque nossas Forças Armadas jamais serão cooptadas por um projeto autoritário dessa natureza", afirmou, ignorando a ditadura militar à direita vigente de 1964 a 1985.
Mourão negou sua fama de antidemocrático, reforçada pela sugestão da confecção de uma Constituição sem representantes eleitos.
"Seria como nos Estados Unidos. Nossa Constituição é terrível, ela abriga de alfinete e foguete. É a mãe de todas as reformas, teremos de lidar com isso. Se não fosse democrata, estava limpando arma", afirmou. Defendeu negociação com o Congresso. "Isso não é ditadura, nem império", completou.
Transitando pelo politicamente incorreto, criticou a política externa dos anos Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-10). "Nós nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, do lado de lá e de cá do oceano na diplomacia Sul-Sul", disse.
Citou então os casos de suspeitas de corrupção em financiamentos brasileiros a projetos na África e na América Latina, um dos eixos da política que buscava alternativas às parcerias tradicionais com EUA e Europa. Depois, disse que usou o termo "apenas para o auditório ficar satisfeito".
Tocando violino para a audiência, fez uma defesa do livre mercado, da redução ou simplificação da carga tributária, da necessidade da reforma previdenciária e da "implementação da trabalhista".
"Querermos estradas alemãs, não com o padrão da República Centro-Africana, me desculpem os irmãos de lá", afirmou.