Não é somente no Ministério da Saúde que os intermediários – como a Davati, que teria oferecido vacinas da Astrazeneca ao governo federal, ou a Precisa Medicamentos, que foi a intermediária na compra da Covaxin, da Índia – que dizem representar grandes laboratórios tentam vender vacinas para o governo e também para entidades da sociedade civil organizada.
Em Mato Grosso do Sul, no mês passado, um intermediário que afirmava conseguir as vacinas Astrazeneca, Sputnik V, Coronavac e Janssen ofereceu os imunizantes para a prefeitura e o governo do Estado por meio da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).
As negociações, por enquanto, não foram levadas adiante.
Mas elas tiveram um início, e a apresentação do negócio foi feita no mês passado pela empresa Global Sales Vaccine, uma pessoa jurídica de Presidente Figueiredo (AM), que tem 37 mil habitantes e está localizada entre as cidades de Manaus (AM) e Boa Vista (RR).
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O intermediário local da oferta foi o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande, Adelaido Vila.
Já o autor da oferta foi José Fernandes da Silva, o presidente da empresa, que até janeiro deste ano se concentrava em outros tipos de atividades, que vão desde “obras de alvenaria” e “restaurantes e similares” até “atividades de estética e outros serviços de cuidados com a beleza”.
“Entrei neste mercado de representação de vacinas agora no mês de janeiro [de 2021], quando os primeiros imunizantes começaram a ser distribuídos no planeta”, explica Fernandes.
O presidente da Global Sales Vaccine afirmou ao Correio do Estado que já tentou vender 2 milhões de doses da vacina Astrazeneca para o Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Sustentável da Serra Gaúcha (Cisga), do Rio Grande do Sul.
Segundo ele, a venda não se concretizou porque até que todas as doses do acordo entre o laboratório sueco e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sejam entregues, somente o Ministério da Saúde pode negociar a aquisição de vacinas.
José Fernandes da Silva complementa revelando que negocia com o Ministério da Saúde a venda de vacinas também, tendo feito uma oferta.
“No momento, estou aguardando uma manifestação de interesse”, informa.
Carta de intenção
A “manifestação de interesse”, ou carta de intenção (LOI, na sigla em inglês), é o elemento fundamental na negociação.
Conforme Fernandes, somente depois disso é que representantes como ele conseguem oferecer um preço por dose ao interessado.
“Há neste mercado distribuidoras gigantes e antigas, que trabalham com esses laboratórios há muitos anos e que ganharam o credenciamento. Há também investidores internacionais que têm o que chamamos de ‘allocations’”, detalha o presidente da empresa amazonense que atuava no ramo da construção civil e agora se dedica a negociar vacinas.
Valor da dose
Enquanto José Fernandes diz que não é possível informar o valor da dose da vacina oferecida a Mato Grosso do Sul, o presidente da CDL de Campo Grande cita o preço, que diz ter sido repassado a ele informalmente: “seria em torno de US$ 15 a dose”, informou Adelaido Vila.
O único agravante dessa negociação seria a quantidade mínima.
“Tinha de ser pelo menos 1 milhão de doses. Era o que nós queríamos, poderíamos oferecer uma alternativa. Já tínhamos conversado com grandes varejistas da Capital e do Estado e faríamos uma grande doação ao poder público para a compra”, disse o presidente da CDL.
O documento da Global Sales Vaccine foi entregue às autoridades no mês passado, durante reunião no Ministério Público.
No acordo, a Global se compromete a entregar a vacina em, no máximo, 30 dias após a aprovação.
A empresa ainda sugere que as compras fossem feitas por meio de prefeituras, uma forma de a aquisição ser mais rápida e segura.
CPI
O uso de intermediários para compra de vacinas ganhou repercussão nacional no fim do mês passado, após os irmãos Luis Miranda (deputado federal pelo DEM-DF) e Luis Ricardo Miranda (servidor do Ministério da Saúde) denunciarem um suposto esquema de corrupção envolvendo a aquisição de vacinas da indiana Covaxin, por meio do intermediário brasileiro Precisa Medicamentos.
O servidor alega que sua intervenção impediu que mais de R$ 1 bilhão fossem pagos de forma adiantada à empresa, e ainda revelou estar sofrendo pressão dentro do Ministério da Saúde para liberar os pagamentos.
Na semana passada, o policial Luiz Paulo Dominguetti disse ter negociado com o mesmo ministério o fornecimento de 400 milhões de doses da Astrazeneca por meio de um intermediário norte-americano, a Davati, ocasião em que agentes do governo teriam pedido propina de US$ 1 por dose.