Política

Entrevista

"A IA realmente pode ser utilizada para algumas coisas, mas não pode ser usada para tudo"

Mansour Elias Karmouche, Conselheiro federal da OAB no Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

Continue lendo...

O conselheiro federal alertou que, hoje, o que alguns chamam de demanda predatória, na verdade, tornou-se uma demanda fraudulenta para enganar pessoas em situação de vulnerabilidade.

O conselheiro federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Mansour Elias Karmouche, concedeu uma entrevista exclusiva ao Correio do Estado e fez uma verdadeira análise da atuação do CNJ. Um dos temas abordados por ele foi o uso da inteligência artificial (IA) pelo Poder Judiciário.

Mansour Karmouche alertou que, no dia que for implementada uma IA para fazer absolutamente tudo no Judiciário, o ser humano terá de ser dispensado. 

Outro ponto abordado pelo advogado foi o excesso de judicializações no Brasil. “Para mim, isso talvez seja hoje a grande chaga do Judiciário, que é essa demanda feita de forma fraudulenta e que nós estamos combatendo”, afirmou.

Ele também falou sobre a figura do juiz das garantias, informando que o CNJ aprovou um ato normativo para regulamentar como será feita em todo o território nacional a utilização e implementação do juiz das garantias. 

O conselheiro ainda citou a questão da igualdade racial no Judiciário. Pelo levantamento que foi feito na Justiça brasileira, menos de 12% dos integrantes são ou se declaram como negros e pardos.

Como o senhor analisa a questão do alto custo do Poder Judiciário hoje no Brasil? 

Veja bem, o Judiciário tem de se pagar de algum jeito. Hoje, ele tem como maior cliente os entes federativos, a União, os estados e os municípios. São os maiores clientes do Judiciário. De R$ 132 bilhões, que é o custo do Poder Judiciário, R$ 68 bilhões são arrecadados por ele mesmo, por meio das custas processuais ou de outras fontes que são geridas pelo Judiciário. Mesmo assim, esse custo é elevadíssimo, pois estamos falando de uma Justiça que não consegue entregar a contento aquilo que é proposto e precisa criar um mecanismo para diminuir essa estrutura toda, achando-se soluções alternativas, que eu acho que esse é o objetivo, e diminuir esse excesso de demanda.

Atualmente, as agências regulatórias, como a Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] ou a ANA [Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico], não funcionam para nada, bem como as outras instituições administrativas, como os Procons [Secretarias de Orientação e Defesa do Consumidor], que acabam não tendo a eficiência necessária para evitar que a pessoa procure o Poder Judiciário.

Fora isso, também temos o excesso de demanda oriundo da área previdenciária, ou seja, o sujeito, hoje, que busca um benefício, que busca uma aposentadoria, quase é obrigado a ir para o Judiciário porque não consegue resolver administrativamente. Então, o Judiciário tem uma dívida com a nossa sociedade e, agora, tem de achar um mecanismo para solucionar o problema.

Como está a atuação da OAB junto ao CNJ?

A Ordem dos Advogados do Brasil foi uma das mentoras da criação do Conselho Nacional de Justiça há muitos anos. A OAB lutava por um órgão independente de fora do Judiciário para fazer o controle, tanto administrativo quanto financeiro e disciplinar. Por quê? Porque as corregedorias locais não davam a devida resposta a todos os questionamentos que eram feitos pelas partes, pelo cidadão, e aí se criou esse órgão externo, que foi com a Emenda nº 45.

A OAB tem um papel preponderante, não só na criação, como também na atuação do CNJ. Nós temos assento reservado no conselho e lá nos manifestamos em todos os casos, tanto nos julgamentos de interesse da nossa classe como também nos de interessa da sociedade, fazendo a defesa.

Portanto, a OAB tem um papel fundamental, como, recentemente, no caso do juiz das garantias, que é uma função exercida no inquérito policial por um magistrado como garantidor da eficácia do sistema de direitos e garantias fundamentais dos acusados no processo penal. Foi uma imensa temática, que é trazida em toda sessão e a OAB está ali para se manifestar, firmar seu posicionamento com relação a isso.

O senhor comentou que o Judiciário hoje tem um grande problema de excesso de judicialização. Então, como reduzir isso?

Bom, nós temos hoje o que alguns chamam de demanda predatória, mas, na verdade, já disse que isso não é demanda predatória, mas uma demanda fraudulenta. Alguns poucos escritórios, que hoje, inclusive, já estão sendo alcançados pela OAB, porque a Ordem faz esse controle ético-disciplinar da atuação profissional desses advogados, para que a gente possa impedir que seja feita uma má utilização, de forma fraudulenta, de pessoas em extrema vulnerabilidade, como idosos, pobres e indígenas, que estão sendo cooptadas para demandar, de forma excessiva e, talvez, ilegalmente para requerer questões que muitas vezes nem sabe se elas têm direito. E utilizam-se às vezes de uma procuração, que é replicada para outras inúmeras ações, chegando ao absurdo de ajuizaram até 40 mil ações, o que é inadmissível.

Para mim, isso talvez seja hoje a grande chaga do Judiciário, que é essa demanda feita de forma fraudulenta e que nós estamos combatendo. É difícil, mas já houve casos de prisão, inclusive dessas pessoas que estavam utilizando desse meio fraudulento, prejudicando idosos, na área previdenciária, principalmente, contra instituições bancárias, e isso é uma coisa que acaba estragando ou colocando em xeque a atuação dos advogados. Mas é uma pequena minoria que acaba estragando praticamente todo o Judiciário por conta desse tipo de procedimento.

O senhor citou o juiz das garantias. Poderia detalhar melhor a função dele?

O juiz das garantias talvez tenha sido um dos maiores avanços civilizatórios para a instrumentalização efetiva do contraditório da ampla defesa. Nós tínhamos, até pouco tempo atrás, um juiz que definia medidas cautelares, posteriormente, fazendo a instrução do processo e, depois, dando a sentença. O que aconteceu? Tanto o Congresso Nacional como o Supremo Tribunal Federal [STF] entenderam que esse primeiro contato do magistrado com cautelares pedidas pelo Ministério Público, pela autoridade policial, acabava contaminando psicologicamente aquele julgador que estaria dali para a frente para julgar esse processo. E, com isso, se criou a figura do juiz das garantias.

Agora, o CNJ aprovou um ato normativo para regulamentar como será feito em todo o território nacional a utilização e a implementação do juiz das garantias. Principalmente porque há locais e há justificativas de que não se têm condições financeiras para fazer essa implementação. Mas o CNJ está dando respostas, e eu acho que isso que é o papel mais importante do conselho, dar respostas para as questões que são de interesse de toda a sociedade.

Então, eu penso que o juiz das garantias talvez tenha sido uma das maiores, depois da audiência de custódia, conquistas da sociedade. Quem critica, não tem a noção exata da importância do juiz das garantias, principalmente para preservar a imparcialidade do julgador e para que a Justiça tenha muito mais respeito, como tem hoje na sociedade brasileira, com sua independência. Isso talvez tenha sido um grande lance que foi realmente trazido para a Justiça.

Nos últimos meses, a questão da igualdade racial no Judiciário ganhou força. Como o CNJ está tratando desse tema?

Também é um tema que vem sendo tratado com muita atenção. Teve a questão da igualdade de gênero, que foi a ascensão para as cortes brasileiras de as mulheres integrarem, por exemplo, uma lista pura de promoção por critério de merecimento. Isso foi um grande avanço que foi feito sob a gestão da ministra Rosa Weber, do STF. E agora também temos a questão da igualdade racial.

Pela radiografia que foi feita no Judiciário brasileiro, menos de 12% dos integrantes são ou se declaram, pelo sistema de autoidentificação, como negros ou pardos. Então, acho que isso é talvez uma resposta que tenha de ser dada para a sociedade, para que você tenha um Judiciário que se identifique mais com a sociedade, que seja a cara da sociedade, porque não tem como você fugir disso.

Hoje nós temos, por exemplo, o Enam, que é o Exame Nacional da Magistratura, que contempla essas questões de minorias, como os indígenas, por exemplo, fazendo com que eles possam participar de forma até diferenciada, para que você tenha um Judiciário mais identificado com a pluralidade da sociedade brasileira, sem ficar com uma característica elitista, que seja o mais identitário possível com a própria sociedade brasileira.

Em Mato Grosso do Sul, tivemos um pequeno avanço nessa questão, mas, em outros estados, isso aí se denota com muito mais intensidade. Porém, eu acredito que Mato Grosso do Sul também vai entrar na mesma linha dos outros tribunais.

Como o CNJ está vendo a chegada da inteligência artificial, tanto na advocacia quanto no Poder Judiciário?

O presidente do CNJ, ministro Luís Roberto Barroso, está solicitando a todos os Tribunais de Justiça que informem quais são as inteligências artificiais que estão sendo utilizadas pelo Poder Judiciário. Por quê? Porque é dever do Poder Judiciário dar a transparência necessária para que a pessoa saiba quem é que está julgando o processo dela, se é um ser humano ou se é uma inteligência artificial.

A IA realmente pode ser utilizada para algumas coisas, mas não pode ser usada para tudo. Eu vejo com muita reserva a utilização da IA e sempre digo uma coisa que, sob o pretexto de querer corrigir uma situação, cria-se uma outra que talvez depois seja até incorrigível. No dia em que você implementar uma IA para fazer absolutamente tudo no Judiciário, você vai dispensar o ser humano e nós vamos ter, talvez, juízes robôs. Isso é bom ou é ruim? Quando você tem um ser humano analisando a conduta de outro ser humano, é uma coisa, mas, quando você tiver um robô para fazer isso, pode não dar muito certo.

Por isso, nós temos de ter muita cautela com relação à IA, pois quantos erros a gente tem visto que ela consegue cometer, então, não é infalível. Nós costumamos dizer que a falibilidade humana é que dá o grande toque de preciosidade do Poder Judiciário, ou seja, a participação humana, tanto é que você só tem recurso para os tribunais pelo grande princípio da falibilidade humana. Porque, se não fosse falível aquele que está julgando, primeiramente, você não precisaria de segunda instância, não precisaria de tribunal. Bom, o juiz robô dá a decisão e não teremos outro juiz robô para revisar, portanto, são questões profundas e tem de haver uma reflexão grande sobre isso.

As pessoas estão tendo a dimensão de que usar um robô vai resolver o problema, mas ele não vai resolver o problema. Eu penso que a IA serve para algum tipo de procedimento, para impulsionar um processo, para fazer uma movimentação ou outra, como tem sido utilizada, mas, para dar sentença, para resolver, para decidir a vida de um ser humano, eu acho que só mesmo um outro ser humano.

Perfil

Mansour Karmouche

Nascido em Campo Grande, filho de Elias Abdo Karmouche e Leila Gabro Karmouche, ele cursou Direito na Universidade do Oeste Paulista e foi aprovado no exame de OAB em 1991 – Seccional de São Paulo.

Tem pós-graduação em Direito Constitucional pela PUC-SP (abril de 2011). Posteriormente, pós-graduou-se em Direito de Família e Sucessões pela Escola Paulista de Direito (EPD-SP), em julho de 2013. Ele foi presidente da OAB-MS de 2016 a 2019 e de 2019 a 2021.

ASSINE O CORREIO DO ESTADO

Em sabatina

Riedel descarta decretar uma nova intervenção na Santa Casa

O governador afirma que o maior hospital de MS precisa solucionar problemas internos e revela passivo de R$ 600 milhões

16/09/2026 07h55

O governador Eduardo Riedel, candidato à reeleição pelo PP, durante a sabatina feita pela imprensa

O governador Eduardo Riedel, candidato à reeleição pelo PP, durante a sabatina feita pela imprensa Marcelo Victor/Correio do Estado

Continue Lendo...

Ao participar ontem da primeira entrevista do projeto Frente a Frente, realizado pelo Correio do Estado, JD1 Notícias, Campo Grande News, SBT MS, TV Guanandi e A Crítica, o governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, descartou uma nova intervenção na Santa Casa de Campo Grande e defendeu a profissionalização da gestão como caminho para enfrentar a crise financeira e administrativa do hospital.

Questionado sobre as denúncias que atingiram a antiga cúpula da instituição e sobre a possibilidade de o poder público reassumir o comando do hospital, Riedel afirmou que uma intervenção não resolveria, por si só, os problemas acumulados pela entidade.

“Eu acho que intervenção não é a solução. A solução é a profissionalização da gestão, e isso deve sair de dentro da Santa Casa. Essa é a minha opinião pessoal. Quem tem que definir é o Conselho de Administração da Santa Casa”, declarou.

O governador ressaltou que a contratualização dos serviços da Santa Casa é feita pela Prefeitura de Campo Grande e ponderou que uma eventual intervenção exigiria respostas sobre quem assumiria as dívidas acumuladas pelo hospital.

“Não é simples uma intervenção. Quem é que fica com o passivo? Quem é que fica com os R$ 600 milhões de passivos constituídos da Santa Casa: o interventor ou o CNPJ?”, questionou.

Apesar das críticas à administração, Riedel classificou a Santa Casa como uma instituição fundamental para a saúde pública de Mato Grosso do Sul e assegurou que o governo estadual continuará apoiando financeiramente o hospital.

Segundo ele, porém, novos repasses precisam estar vinculados à produtividade, à eficiência e à transparência.

“A Santa Casa sempre cobrou aumento de transferência de recursos, e eu sempre falei: vamos mudar a contratualização, vamos aumentar o recurso por produtividade, porque eu quero ver o que acontece lá dentro”, afirmou.

Conforme os números apresentados pelo governador, o Estado repassou R$ 98 milhões ao hospital em 2024 e R$ 149 milhões em 2025. Até agosto deste ano, teriam sido transferidos R$ 106 milhões. A projeção é de que os repasses se aproximem de R$ 190 milhões até o fim deste ano.

“Essa é uma relação de mão dupla, porque o dinheiro é da sociedade sul-mato-grossense. Eu vou cobrar eficiência e transparência sempre. O que está acontecendo na Santa Casa é uma questão que a Santa Casa vai ter que resolver”, disse.

INCENTIVOS FISCAIS

Durante a entrevista, Riedel também defendeu a manutenção dos incentivos fiscais concedidos pelo governo estadual. Questionado sobre o volume de benefícios previsto para este ano, o candidato afirmou que os incentivos são utilizados tanto para atrair empresas quanto para reduzir o preço de produtos essenciais.

De acordo com ele, a política de atração de investimentos contribuiu para a criação de mais de 140 mil empregos em três anos e meio. O governador também relacionou os benefícios fiscais ao aumento da renda média e à redução do desemprego no Estado.

“Se eu continuar no governo, vou continuar a linha dos incentivos para atrair cada vez mais investimentos, capital e novos negócios para o Estado, porque eles são um motor da economia”, declarou.

Riedel argumentou que parte dos empreendimentos não seria instalada em Mato Grosso do Sul sem os benefícios. Por isso, segundo ele, o incentivo não pode ser considerado apenas uma renúncia de receita.

“Incentivar algo que não existiria não é abrir mão de receita, porque essa receita não existe. Ao dar o incentivo, o Estado gera uma série de outras receitas com a ativação da economia e com as empresas que passam a participar do processo”, disse.

Ao comentar a situação das finanças estaduais, Riedel afirmou que a arrecadação tem crescido abaixo da inflação e admitiu que este ano exige atenção diante da compressão do orçamento. Mesmo assim, disse que o Estado conseguiu manter os investimentos entre 12% e 15% da receita corrente líquida.

“Antes de pensar em arrecadar mais, a gente tem que pensar em gastar melhor. O Brasil gasta muito e gasta mal. Temos que olhar o tempo todo para a qualidade do gasto”, afirmou.

EDUCAÇÃO

Riedel disse ainda que Mato Grosso do Sul não precisa, neste momento, adotar uma parceria público-privada na educação, mas não descartou o modelo no futuro, caso haja viabilidade financeira.

Segundo ele, uma eventual PPP ficaria restrita à construção e à administração da estrutura física das escolas. Professores, conteúdo pedagógico e responsabilidade pelo desempenho dos estudantes continuariam sob o comando do Estado.

“Se tiver viabilidade do ponto de vista financeiro e a administração puder ser mais bem gerida, é um bom caminho. No nosso caso, não temos necessidade porque temos o patrimônio constituído e uma rede de escolas muito boa”, declarou.

O governador informou que foram aplicados R$ 1,2 bilhão na reforma de aproximadamente 270 escolas estaduais, incluindo intervenções nas redes elétrica e hidráulica, climatização, laboratórios de informática e robótica e bibliotecas.

SEGURANÇA

No tema da segurança pública, Riedel afirmou que o enfrentamento à violência contra as mulheres será incluído na grade escolar da rede estadual a partir de 2027.

Para o governador, as políticas de combate ao feminicídio precisam começar antes de os casos chegarem às delegacias. “Quando esse assunto chega à segurança pública, é porque nós já falhamos como sociedade. Precisamos criar consciência e estabelecer uma rede de proteção para que não chegue à delegacia”, disse.

Riedel afirmou que mais de 20 mil servidores de 47 municípios foram capacitados para reconhecer indícios de violência. Também citou a existência de salas Lilás em 72 cidades, a construção de outras duas Casas da Mulher Brasileira e mudanças nos procedimentos adotados pelas forças de segurança e pelo sistema de Justiça.

MEIO AMBIENTE

Sobre a expansão da indústria de celulose, Riedel reconheceu que os empreendimentos provocam impactos sociais nas cidades, especialmente durante a fase de construção.

Ele disse que o Estado utilizou a experiência de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo para exigir mais contrapartidas da fábrica da Arauco em implantação em Inocência.

“Você vai a Inocência e vê o efeito social, mas não tem hoje o drama que tivemos em Ribas, porque as contrapartidas exigidas da empresa foram trabalhadas a partir daquele aprendizado”, afirmou.

Entre as medidas citadas estão alojamentos afastados da área urbana, transporte para os trabalhadores, reforço na segurança pública e uma unidade de saúde equipada para atender empregados e moradores.

Riedel também defendeu os benefícios ambientais das florestas plantadas, mas admitiu que alterações como a proliferação de macrófitas no Rio Pardo precisam ser investigadas e corrigidas. “Qualquer mudança ou intervenção tem que ser olhada com cautela e corrigida”, declarou.

DESENVOLVIMENTO

Ao falar sobre desenvolvimento econômico, Riedel afirmou que pretende ampliar a industrialização da produção estadual.

O governador disse que não quer limitar a cadeia da celulose à produção da matéria-prima e das grandes fábricas.

“Eu não quero parar na fábrica de celulose. Quero fábrica de papel, de produtos acabados, distribuição, rede logística e a Rota Bioceânica funcionando para levar o produto acabado para fora do País”, afirmou.

O candidato também mencionou a instalação do primeiro data center de Mato Grosso do Sul, em Ivinhema.

O empreendimento é abastecido por energia produzida a partir de biomassa e atende a uma empresa de mineração de bitcoins. 

Na agricultura familiar, Riedel prometeu reforçar assistência técnica, infraestrutura e agroindustrialização.
Ele citou como exemplo o apoio a pequenas unidades de processamento de mandioca para produção de farinha e outros alimentos. 

Adiamento

Crise no STF deve se prolongar

Paralisação das investigações sobre Moraes deixa o STF sem desfecho e coloca a credibilidade da Corte no centro da disputa política

16/09/2026 07h45

Ministros do STF, Alexandre de Moraes e André Mendonça

Ministros do STF, Alexandre de Moraes e André Mendonça Fotos: Divulgação STF

Continue Lendo...

A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, de suspender a sessão extraordinária sem deliberação final abriu margem para a ampliação de uma das maiores crises institucionais da história recente da corte.

O adiamento ocorreu após o ministro Flávio Dino solicitar pedido de vista, dispositivo que lhe concede até noventa dias para analisar os autos, paralisando a votação sobre a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. A apuração se baseia em relatório de quatro delegados da Polícia Federal (PF) que apontou Moraes como interlocutor do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro.

O ambiente no plenário ao longo de mais de seis horas foi marcado por confronto direto e ofensas entre magistrados. A divergência central envolve questão de ordem de Gilmar Mendes, respaldada por Moraes, para que os pedidos de investigação contra Moraes e contra o ministro André Mendonça fossem apreciados conjuntamente. A sessão para analisar o caso de Mendonça estava marcada para o dia 23.

No placar temporário registrado por Fachin, formou-se maioria de quatro votos a três votos contra a unificação. Votaram pela manutenção de análises separadas Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

Posicionaram-se a favor do julgamento conjunto Cristiano Zanin e Moraes. Embora Dino tenha sinalizado alinhamento à unificação, seu pedido de vista impediu a conclusão do resultado.

A inclusão do voto de Dino pode levar a um empate em quatro a quatro no plenário. Nesse cenário, subsistem dúvidas regimentais sobre a proclamação do resultado, pois o regimento prevê que o voto do presidente valeria como minerva. A situação ganha complexidade pelo fato de Fachin acumular a condição de relator.

As divergências procedimentais foram criticadas por Dino. O ministro contestou a decisão de Fachin de avocar a relatoria referente a Moraes, afastando Mendonça, relator originário do caso Master. Dino sustentou que a alteração feriu o devido processo legal. “Houve um sacrifício dos ritos, sacrifício das formas, sacrifício do devido processo legal. Se você não tem rito, você tem dois pesos e duas medidas, que é a negação da Justiça”, argumentou Dino.

Em seu voto, Moraes defendeu a instrução unificada. “Não há razão para que a instrução e o julgamento não sejam conjuntos. As delegações são bases fáticas e probatórias comuns, se sobrepõem, porque uma anula a outra, uma afasta a outra”, destacou Moraes. A tese de adiar o debate já fora sugerida por Gilmar Mendes em ofício a Fachin.

A tramitação registrou desfalques. Dias Toffoli declarou-se suspeito e manteve o afastamento dos casos do Banco Master assumido em março, após ligações de familiares com fundo do banco.

Já Kassio Nunes Marques declarou-se impedido e retirou-se da sessão. Como presidente do TSE, Nunes Marques justificou sua ausência.

“Eu entendo que essa missão é mais importante que é assegurar o equilíbrio nas eleições de 2026”, declarou.
Tensão

O ápice da tensão ocorreu durante a manifestação de Gilmar Mendes, que teceu acusações severas contra André Mendonça. O decano acusou o colega de atuar com viés político-eleitoral e adotar métodos de organizações criminosas.

“Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comportar desta forma. Um tribunal que isso admite já não delibera com liberdade”, afirmou Gilmar Mendes.

Classificando a conduta como “um jogo de omertá, de máfia”, o decano criticou a apuração parcial no ciclo eleitoral. “Como se a gravidade da notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere, ou conforme o tribunal que ele integra”, disse Gilmar.

O ministro completou: “Evidente que se trata de um pixuleco, de um boneco eleitoral. É disso que nós estamos falando, sob pena de que o resultado, qualquer que seja ele, nasça marcado pela suspeita de haver servido a alguém”.

A intervenção de Gilmar desencadeou confronto verbal direto com Mendonça. Aos gritos e apontando o dedo, o decano afirmou: “Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso”. 

Mendonça reagiu: “Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um. Respeite este tribunal”. Ao que Gilmar retrucou: “Quem não se dá respeito não merece respeito”.

Executivo

A crise repercutiu no Executivo. Em entrevista à Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou Mendonça de promover vazamentos seletivos. “Aquilo que o André Mendonça tinha guardado como segredo de Estado e só soltando o que interessava a ele, agora pode ser aberto para toda a sociedade saber quem tava metido nisso”, declarou Lula.

O chefe do Executivo cobrou rigor para evitar a degradação da imagem do Judiciário. “Chegamos a um momento determinante na história deste País. Não há ninguém que possa fugir do julgamento quando tem suspeita e acusação contra ele. A Suprema Corte precisa ser exemplo e não contribuir com a desconfiança da sociedade”, afirmou o petista.

Lula enfatizou a responsabilidade de Fachin: “O Fachin tem agora a faca e o queijo na mão para abrir tudo e saber quem fez o que na Suprema Corte. E quem fez o que [fez] tem que ser punido, julgado”.

Lula já havia comentado a situação ao SBT, cobrando providências. “Falta apurar. Quem é culpado de verdade? Se o Moraes é o culpado, tem que pagar, se o Mendonça é o culpado, tem que pagar, se o Fachin é culpado, tem que pagar”, cobrou o presidente. 

A equipe de Flávio Bolsonaro tenta associar Lula a Moraes, enquanto o Planalto atua para desvincular o presidente do conflito. Com o pedido de vista de Dino, a crise no STF permanece sem desfecho rápido.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).