O resultado das urnas no primeiro turno das eleições gerais em Mato Grosso do Sul validou as tendências apontadas pela última pesquisa do Instituto de Pesquisa Resultado (IPR), contratada pelo Correio do Estado, publicada no dia 2, antevéspera do pleito, para o governo do Estado e para as duas cadeiras no Senado.
Segundo Aruaque Fressato Barbosa, diretor do IPR, o levantamento indicou a reeleição do governador Eduardo Riedel (PP) e as vitórias do ex-governador Reinaldo Azambuja e do ex-deputado estadual Capitão Contar, ambos do PL, para as duas cadeiras do Estado na Câmara Alta.
Ao comparar os levantamentos do IPR/Correio do Estado com os resultados eleitorais, ele apontou a disputa pelo governo como a principal confirmação das tendências identificadas durante a campanha.
Na última pesquisa, Riedel apareceu com 66,84% dos votos válidos e, conforme os números apresentados pelo diretor do instituto, terminou a eleição com 67,1%.
“Riedel chegou à reta final já consolidado. Esteve perto de metade do eleitorado em todas as ondas do IPR desde março, liderava em todas as regiões do Estado e tinha a menor rejeição da disputa, 4,3%”, recordou.
Já com relação à eleição para o Senado, o diretor do IPR lembrou que a ordem apontada pelos levantamentos também foi confirmada pelas urnas, com Azambuja à frente de Capitão Contar.
“Na pesquisa publicada no dia 2 de outubro, eles apareceram, respectivamente, com 35,35% e 31,19%, considerando apenas os votos válidos, enquanto nas urnas o ex-governador fez 34,64% e o ex-deputado estadual obteve 32,82%”, citou.
DIREITA FORTALECIDA
Para o diretor do IPR, o perfil conservador do eleitor sul-mato-grossense antecede o fortalecimento do PL, pois o levantamento mostrou que 33,4% dos entrevistados se declararam de direita ou centro-direita, proporção equivalente ao dobro daqueles que se identificaram com a esquerda.
“O que mudou foi o veículo. O PL passou a reunir as principais lideranças desse campo, elegeu os dois senadores e a maior bancada da Assembleia [Legislativa de Mato Grosso do Sul]. Se essa força vai durar depende de o partido manter essas lideranças e entregar resultados”, afirmou.
Aruaque também distingue a identificação com a direita do apoio direto ao bolsonarismo. Na pesquisa citada pelo entrevistado, 13,3% se disseram bolsonaristas, enquanto 24,6% afirmaram não ser bolsonaristas, mas preferir as ideias da direita.
Na avaliação dele, essa parcela tem ligação com o agronegócio, o interior e a avaliação de gestão, o que ajuda a explicar o desempenho de Riedel e Azambuja. “A liderança nacional mobiliza, mas a base da direita no Estado tem vida própria”, falou.
Ainda de acordo com o diretor do IPR, a capacidade de alcançar eleitores de diferentes posições políticas favoreceu o governador. Os levantamentos indicavam que, entre os eleitores de Riedel, 61% declaravam voto em Flávio Bolsonaro (PL) e 22% em Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para ele, isso explica por que a vitória expressiva do governador, apoiado por uma aliança ampla, ocorreu ao mesmo tempo que o crescimento de candidatos mais identificados com a direita.
“Riedel funcionou como ponte e o PL como identidade. Ele somou a direita a uma parte do centro e da esquerda que aprova a gestão. Os candidatos mais ideológicos mobilizaram a base engajada”, analisou.
Aruaque também avaliou que o elevado número de pessoas que não mencionavam candidatos na pesquisa espontânea não representava, necessariamente, ausência de preferência.
“Cerca de 70% não citavam nenhum nome para governador, mas a votação acompanhou o cenário apresentado na pesquisa estimulada”, pontuou.
Na visão dele, o resultado demonstrou baixo envolvimento de parte do eleitorado com a campanha e concentração dos votos nas candidaturas consolidadas.
No campo da oposição ao governo do Estado, Aruaque destacou a votação do ex-deputado federal Fábio Trad (PT) e o esvaziamento das alternativas intermediárias.
Em sua análise, o resultado das urnas combina aprovação da gestão do governador, fortalecimento de lideranças estaduais e crescimento do PL.
Aruaque afirmou que a reeleição de Riedel, a conquista das duas vagas do Senado por Azambuja e Contar, a formação da maior bancada da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems) pelo PL, bem como o fato de o partido obter três vagas na Câmara dos Deputados, ampliaram a concentração de poder desse campo político.
“É uma intensificação que muda de escala. A novidade é a concentração: o mesmo campo venceu para presidente no Estado, governo, as duas vagas do Senado e a maior bancada da Assembleia. Isso abre um ciclo em que a disputa principal deixa de ser entre direita e esquerda e passa a acontecer dentro do próprio campo da direita”, analisou.
FORÇA DO PL
Apesar da mesma filiação partidária, ele identifica diferenças entre os eleitorados. Contar teria recebido um voto mais ideológico, concentrado entre apoiadores de Flávio Bolsonaro, enquanto Azambuja alcançou um público mais amplo, inclusive eleitores de Lula.
Na Alems, a bancada de nove deputados do PL deverá ter papel central na relação com o Executivo a partir de 2027. Aruaque considera que Riedel terá condições favoráveis para aprovar a sua agenda, mas precisará negociar com uma força partidária maior que a de sua sigla.
“A tendência é de parceria com mais cobrança, e de um debate que acontece dentro da própria base, já de olho em 2030”, projetou.
O diretor do IPR avalia que o partido tentará transformar o desempenho estadual em conquistas municipais em 2028. Para a sucessão de Riedel, em 2030, a tendência apontada por ele é de uma disputa entre diferentes lideranças da direita.
“A pergunta não é se a direita será competitiva, e sim qual direita”, afirmou, ressaltando que os resultados permitem identificar tendências, mas não antecipar o desfecho do próximo pleito.
SEGUNDO TURNO
Na disputa presidencial, a principal surpresa para o instituto foi a intensidade do crescimento de Flávio Bolsonaro na reta final em MS.
Segundo Aruaque, o candidato passou de 52,5% dos votos válidos na última pesquisa para 58,6% nas urnas.
Ele atribui o movimento ao voto útil, à decisão dos indecisos e à abstenção de 23,8%.
Na análise do entrevistado, a ausência foi maior entre eleitores de menor renda, segmento em que Lula apresentava mais força. “A pesquisa mostrou a direção; a urna mostrou a intensidade”, declarou.
Para o segundo turno, Aruaque considera que a rejeição e a capacidade de levar os eleitores às urnas terão peso decisivo.
Ele adverte que os votos dos candidatos eliminados não são transferidos automaticamente aos dois finalistas.
“No segundo turno o eleitor passa a escolher entre duas opções, muitas vezes por quem rejeita menos. Os eliminados somaram cerca de 8% dos válidos no País, e esse eleitor vai se dividir, anular ou não comparecer”, explicou.
Em MS, os índices de rejeição apresentados pelo diretor do IPR eram de 41,3% para Lula e 29,2% para Flávio.
Para Aruaque, reduzir a resistência ao próprio nome será fundamental para ampliar a votação. Os independentes também devem ocupar o centro das estratégias.
Segundo ele, 26,3% dos entrevistados se declararam independentes, grupo que tende a decidir com base na economia, no cotidiano e na rejeição aos candidatos.
Aruaque avalia que as campanhas precisarão combinar mobilização das bases com propostas capazes de alcançar o centro, especialmente em temas como custo de vida, segurança e serviços públicos.
Nesse cenário, o apoio de governadores, senadores e deputados tem alcance limitado para transferir votos, mas pode contribuir para reduzir a abstenção.


