O advogado José Roberto da Rosa confirmou que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), através do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), pediu a prisão do delegado Guilherme Scucuglia Souza, ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron). Porém, a solicitação foi negada pela justiça devido a ausência de provas contundentes. A informação foi confirmada durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (6).
Com isso, a justiça decretou apenas o mandado de busca e apreensão, cumprido na manhã de quinta-feira (5), durante a segunda fase da Operação Infiltrados. De acordo com a defesa, a única menção ao delegado nas investigações provém de uma conversa entre supostos traficantes, que mencionaram um "delegado cabeludinho" durante uma incineração de drogas.
"A busca e apreensão foi designada porque numa interpretação feita, numa conversa entre duas pessoas que não delegado, teriam feito menção à questão envolvendo um delegado cabeludinho. Mas que não tinha absolutamente nada a ver com o malfeito. Era uma interpretação que se deu à época sobre essa conversa entre terceiros. Esta conversa que houve entre dois interlocutores aconteceu no meio de uma situação em que uma droga ia ser incinerada", disse o advogado José Roberto da Rosa.
As equipes do Gaeco realizaram o mandado de busca e apreensão no gabinete e residência do delegado Scucuglia, porém, de acordo com José Roberto da Rosa, nada de interesse da investigação foi arrecadado, "nenhum evento". Atualmente, Guilherme está lotado na Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos (Derf).
Transferência para Defron
O delegado Guilherme foi transferido para o Defron pela cúpula da Polícia Civil para investigar supostos desvios de conduta dos seus companheiros de profissão e trazer informações sobre o que ocorria internamente, não participar de ilícitos, de acordo com o advogado.
José Roberto diz que a implicação do delegado nas investigações resultou de um "desencontro entre as instituições" e ausência de troca de informações. A Polícia Civil tinha conhecimento de sua função investigativa interna, mas o Gaeco, que investigava o fato, aparentemente não.
"Na época em que ele foi encaminhado para o Defron, já havia uma parte da cúpula da Polícia Civil que precisava ser melhor investigada. E o delegado Guilherme foi designado para lá justamente por este evento. Então não existe nenhuma implicação do delegado com o malfeito. Muito pelo contrário. Ele foi encaminhado para Dourados para investigar supostos desvios de conduta e o Gaeco não tinha essa informação".
Infiltrados II
O Gaeco voltou às ruas para uma segunda fase da Operação Infiltrados depois de novos desdobramentos da investigação apontar diversos policiais ligados à Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron) envolvidos no esquema de desvio de drogas apreendidas. Essa é a segunda delegacia especializada, considerada de elite, a ter homens envolvidos com traficantes.
Conforme nota oficial divulgada pelo órgão, a Operação Infiltrados II cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 11 mandados de busca e apreensão nos municípios de Dourados, Ponta Porã, Nova Andradina e Santa Terezinha de Itaipu (PR). Ao todo, nove policiais que, de junho de 2025 a maio deste ano, estavam lotados na Defron foram alvo de medidas cautelares ontem.
“O modus operandi adotado pela organização criminosa consistia no desvio de drogas apreendidas em ocorrências policiais, seja pela subtração de entorpecentes diretamente na diligência policial ou posteriormente do depósito da delegacia, como ainda quando era transportada para incineração, sendo entregue então para traficantes que ficavam responsáveis por reintroduzir o estupefaciente no mercado ilícito”, explica o MPMS.
Quanto à operação, o Ministério Público diz que, em uma das ações investigadas, ocorrida em setembro de 2025, foram desviados mais de 500 quilos de cocaína, que seriam levados à incineração, caminho natural das drogas apreendidas.
“Os policiais que integram a organização criminosa se valiam de suas funções públicas exercidas no combate à criminalidade para, em completa subversão de seus deveres funcionais, atuarem como verdadeiros fornecedores para o tráfico”, reforça.
Além do delegado Guilherme Scucuglia Souza, os outros policiais investigados na operação são: Rogério da Rocha Ferreira, Rodrigo Carpes da Silva, Anderson Mirandola, Cassiano Rodrigues Teixeira, Eumer Cordeiro Barbosa, Oseias Medeiros da Silva, Gustavo dos Santos Sayão e João Marcos Garcia.