Artigos e Opinião

ARTIGO

Carlos Drummond de Andrade: "Organiza o Natal"

Poeta - Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço"

Redação

24/12/2014 - 00h00
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Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas.

Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro. A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz. O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive. E será Natal para sempre.

 

EDITORIAL

Operações do MPMS e o recado às prefeituras

MPMS, sociedade e imprensa seguem atentos. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público

13/02/2026 07h15

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Desde o ano passado, mais de uma dezena de prefeituras em Mato Grosso do Sul foram alvo de operações conduzidas pelos grupos especializados no combate aos crimes do colarinho branco e ao crime organizado, em ações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Muitas delas com cumprimento de mandados de busca e apreensão e afastamento de agentes públicos, escancararam um cenário preocupante: indícios de conluios envolvendo integrantes do primeiro escalão municipal e fornecedores com a finalidade de desviar recursos públicos.

Não é a primeira vez que este espaço elogia a atuação cirúrgica do MPMS. E reiteramos: se há crime, deve haver investigação e punição. O dinheiro público não pertence a gestores, partidos ou grupos políticos. Pertence à população.

Cada centavo desviado representa menos remédio nos postos de saúde, menos qualidade na merenda escolar, menos infraestrutura nas cidades. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul cumpre o seu papel constitucional ao fiscalizar, investigar e denunciar.

O que chama a atenção, contudo, é a reação do outro lado – o político. Nesta edição mostramos que, ao que tudo indica, parte da classe política ainda não compreendeu a gravidade do momento.

Ou, se compreendeu, tem demonstrado dificuldade em assimilar o recado. As operações não são fatos isolados. Não se trata de um episódio pontual, mas de um padrão que precisa ser interrompido.

É preciso ampliar os mecanismos de controle sobre o gasto público. E isso só se faz com transparência absoluta. Portais de transparência atualizados, processos licitatórios claros, contratos acessíveis, fiscalização social estimulada.

Quem age com clareza, quem expõe seus atos à luz do dia, tende a ter menos problemas com investigações. E, quando ocorre algum equívoco de procedimento, pode demonstrar que agiu de boa-fé, sem dolo, sem intenção de lesar os cofres públicos.

O que não é admissível é que, depois de sucessivas operações, de denúncias envolvendo esquemas estruturados para fraudar contratos e desviar dinheiro, tudo continue como se nada tivesse acontecido. Não é normal. Não pode ser tratado como rotina administrativa.

A naturalização do desvio corrói a confiança da população nas instituições e enfraquece a democracia.

Mais do que nunca, é preciso seriedade na gestão pública. Seriedade com o dinheiro do contribuinte, com os contratos assinados, com as prioridades definidas. A mensagem das operações é clara: há fiscalização, há investigação e haverá responsabilização.

Assim como o MPMS cumpre sua função, a imprensa seguirá atenta e a sociedade também. Transparência não é concessão; é obrigação. E controle não é perseguição; é instrumento de proteção ao interesse público. Quem administra recursos coletivos deve estar preparado para prestar contas – sempre.

ARTIGOS

Afeto em modo on-line

A proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua

12/02/2026 07h45

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Sabe aquela sensação de que você realmente conhece seu podcaster favorito, a ponto de antecipar as piadas e opiniões dele? Ou aquele leve orgulho que você sente quando um influenciador que você acompanha atinge uma nova meta, como se fosse um amigo próximo celebrando uma conquista?

Talvez você já tenha se visto defendendo um youtuber em uma seção de comentários ou sentindo uma tristeza genuína com o término de um casal famoso. Se alguma dessas situações parece familiar, você já vivenciou a essência de um comportamento que define a nossa era.

Essa conexão tão particular tem nome: relacionamento parassocial. O termo, que descreve um vínculo de mão única que uma pessoa desenvolve com uma figura pública, foi eleito a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário Cambridge.

Essa escolha não foi por acaso, ela oficializa a importância de um fenômeno que, embora antigo, foi intensificado de forma radical pela era digital, deixando de ser um assunto de especialistas para fazer parte do vocabulário popular, muito em função da estrutura proposta pelas redes sociais.

No passado, nossos avós admiravam estrelas de cinema distantes, projetadas em telas e envoltas em mistério. Hoje, por outro lado, um criador de conteúdo compartilha sua rotina nos stories, desabafa sobre seu dia em um post e interage com seus seguidores.

Essa proximidade construída, esse acesso aos bastidores da vida cotidiana, cria uma poderosa ilusão de que a conexão é mútua. O fenômeno, no entanto, é interessante não apenas pelo comportamento que descreve, mas também pela forma como a própria palavra se popularizou.

Nesse ponto, a internet é a grande protagonista, pois funciona como um acelerador de novas palavras. Ela captura conceitos complexos e os transforma em termos de uso massivo.

Palavras como “cringe” (algo que causa vergonha alheia), “shippar” (torcer por um casal) ou “biscoiteiro” (alguém que busca validação on-line), por exemplo, nasceram ou ganharam força nesse ambiente, sendo rapidamente integradas à nossa língua.

A internet, portanto, não apenas cria fenômenos sociais, ela também nos fornece, em tempo real, as ferramentas para nomeá-los.

Fica claro, dessa forma, o papel duplo e central das redes sociais. Por um lado, elas moldam nosso comportamento, criando novas formas de interação, como os laços parassociais. Por outro, contribuem ativamente para a renovação do nosso vocabulário, popularizando termos que nos ajudam a dar sentido a essa realidade cada vez mais digital.

A ascensão da palavra “parassocial” é, nesse sentido, o exemplo perfeito dessa dinâmica: um reflexo de como nossas vidas mudaram e, ao mesmo tempo, de como nossa linguagem corre para acompanhar essa mudança.

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