Da redação
Mesmo classificado como um dos países que saiu mais fortalecido da crise internacional que teve seu auge em setembro de 2008, o Brasil voltou a sentir os efeitos das turbulências que castigam os mercados financeiros do mundo nos últimos dias. Seguindo os movimentos das Bolsas europeias e norte-americanas, o índice Bovespa despencou, quinta-feira, 4,73%. Ontem, o índice fechou em queda de 1,83%, elevando a perda acumulada nesta semana para 4,03%. Esse contágio percebido pelas ações brasileiras mostra que, na hora em que a aversão ao risco cresce, o investidor para de olhar para os fundamentos. A ordem é interromper os prejuízos e correr para ativos considerados seguros e pouco voláteis - condição ocupada, apesar de toda a crise, pelos papéis da dívida norte-americana, os chamados treasuries.
A forte presença de capital externo e, sobretudo, seu perfil agressivo e ágil na compra e na venda, explica a repercussão dos movimentos externos sobre a Bolsa brasileira, segundo o analista da Gradual Investimento Flávio Conde. "O nível de poupança nacional, incluindo fundos de pensão, pessoas físicas e outros investidores, não garante um fluxo de recursos suficiente para fazer a Bolsa subir ou cair vigorosamente", afirma Conde. Ou seja, quem dá força aos movimentos é o capital externo, que tem hoje uma grande mobilidade entre os diferentes mercados e países
Foi ele quem sustentou o ganho acumulado de quase 83% em 2009, e é ele quem está usufruindo esse ganho acumulado agora para cobrir seus prejuízos no exterior. "O investidor entra e sai com rapidez porque as barreiras ao capital foram reduzidas a quase zero nos últimos dez anos", explica. Segundo dados da BM&FBovespa, no mês de janeiro, 28% das transações de compra e venda de ações na bolsa brasileira foram feitas por investidores estrangeiros. Essa participação já foi bem maior, próxima a 37%, entre junho e julho do ano passado.
O sócio diretor do banco Modal, Eduardo Cotrim, observa que, se o investidor que está levando prejuízo lá fora é o mesmo que sustenta a bolsa aqui, na hora da volatilidade, o ajuste das carteiras afeta todos os papéis. Ele explica que os portfólios têm sempre um limite de risco - o conjunto de ativos pode, por exemplo, oscilar 2% para cima ou para baixo. E, quando a volatilidade aumenta, o gestor tem de ajustar sua carteira para enquadrar esse risco. Conde, da Gradual, observa ainda que o investidor tem um limite de perdas que ele pode suportar em sua carteira.
Quando o prejuízo atinge um determinado nível, é acionado o chamado stop loss, que obriga o gestor a vender os ativos, mesmo com perdas. "Para cobrir essa perda da carteira, ele vende outros ativos, em outros mercados", explica. "E é isso que muita gente está fazendo neste momento." Na pressa de acabar com o prejuízo, o investidor vai vender justamente os mais líquidos. E, nessa hora, os papéis brasileiros são vítimas de seu sucesso: com boa demanda junto ao mercado internacional, Petrobras, Vale, Usiminas, Gerdau, Bradesco, BM&FBovespa, entre outras, acabam puxando as perdas, porque são vistas como boas portas de entrada e de saída no mercado brasileiro. E, o que é melhor, com bom ganho acumulado. "A liquidez é uma coisa positiva dos ativos brasileiros, mas ela ajuda a explicar porque elas caem mais na hora da crise", explica Conde.
Mas a globalização vai muito além da contabilidade de perdas e ganhos. O desempenho da economia real também está estritamente relacionado às perspectivas da economia global. Afinal, o Brasil é exportador de commodities e a evolução da demanda internacional vai influenciar a rentabilidade das empresas produtoras dessas matérias-primas. E as empresas produtoras de commodities - como Petrobras, Vale e siderúrgicas - têm uma participação de cerca de 40% no Ibovespa. Ou seja, as dúvidas sobre o rumo do consumo externo afeta diretamente o apetite do investidor por esses papéis.
"Hoje, as empresas são globais, desde a pequena até a maior. Assim, sempre há algum fato relacionado ao mercado internacional", explica o gerente de pesquisa da Planer Corretora, Ricardo Martins. Ele observa que a forte valorização da Bovespa em 2009 refletiu o bom desempenho da economia brasileira, que conseguiu voltar a crescer mesmo em meio à crise, graças às medidas oportunas adotadas pelo governo. Ou seja, o investidor "pagou antecipadamente" pela expectativa de que esse crescimento continue em 2010, com uma expansão do PIB entre 5% e 6%. Se esse cenário for colocado em dúvida, o apetite diminui.
Segundo o sócio e economista da Legan Asset Management, Fausto Gouveia, o que gera dúvidas sobre a evolução da economia internacional e, consequentemente, da brasileira, é o fato de a China ter acenado com a possibilidade de conter o crédito para esfriar o consumo. Ocorre que a China é um grande parceiro comercial do Brasil e um importante consumidor de minério de ferro da Vale. Já na Europa, Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia enfrentam um importante problema de déficit fiscal e desemprego, o que também significa consumo menor. E, nos EUA, mesmo com todo o estímulo concedido pelo governo, ainda não há uma trajetória clara de recuperação. "Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa situação e, diante dessas dúvidas, o investidor vende sem dó e corre para os treasuries", afirma.
Gouveia diz que, diante desse cenário externo conturbado, o investidor também começa a considerar como um ponto negativo a perspectiva de alta de juros aqui. "Será uma alta considerável, que deve provocar a migração para ativos de renda fixa", defende Além disso, a retirada definitiva dos incentivos fiscais em abril - quando a alíquota do IPI sobre veículos flex subirá de 3% para 7% - é um limitador do consumo local, que pode atrapalhar a perspectiva positiva das empresas brasileiras. "Apenas quando todos os incentivos forem retirados é que será possível ter uma ideia mais clara sobre como está a economia. Essa será a hora da verdade", afirma.
FUTURO
A pergunta que vale um milhão de dólares é até onde vai a crise. E se, com a queda dos preços dos ativos, já está na hora de voltar a comprar e aproveitar as pechinchas. Mas, segundo todos os especialistas ouvidos, ninguém tem essa resposta. "Quem vai saber se estamos vendo a ponta de um iceberg ou uma pedrinha de gelo?", observa Gouveia, da Legan Asset. Ele diz que poderia apontar um parâmetro que pode ser adotado para o índice é o nível entre 55 mil e 58 mil pontos. Esse foi o nível em que o índice permaneceu durante um tempo relativamente mais longo durante a crise, algo como algumas semanas. "Graficamente, esse é um ponto a ser considerado, mas é muito difícil dizer que esse é o limite de baixa", afirma.
A queda do preço das ações poderia atrair, teoricamente, as compras e ajudar na recuperação do mercado. Mas Conde, da Gradual, afirma que também limita a recuperação o fato de o mercado, de um modo geral, já estar "comprado" em Bolsa e ter pouco espaço para ampliar sua exposição agora, mesmo com as boas ofertas. Então, este seria o momento para o dinheiro novo. "Mas esse investidor tem medo de entrar neste momento", explica. (do Estadão)