A oitava potência do mundo, o Brasil, tem a agradecer ao Haiti, país mais pobre das Américas. A experiência dos militares brasileiros na ilha será crucial ao trabalho que o Exército executará no Complexo do Alemão, na Penha, Rio. Baseado no que as tropas vivenciaram e com informações do setor de inteligência, o Exército montou um plano de ação para todos os estados brasileiros. Se forem acionados, saberão o que fazer e como fazer. É o que contam dois ex-comandantes de tropa no Haiti, o general Augusto Heleno e o coronel da reserva Barroso Magno.
"O Exército tem um plano de atuação para apoio ao governo do Estado do Rio e todos os estados. Chama-se Plano de Segurança Integrada e é realizado para a contingência da constituição, nas situações de Garantia da Lei e da Ordem", explica Magno, comandante do 6º contingente brasileiro na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). De acordo com o coronel, responsável pela pacificação de uma das favelas mais violentas do país caribenho, a Cité Soleil, o Exército atualiza as informações do plano anualmente.
Com a experiência de quem foi o primeiro militar a comandar as tropas brasileiras na Minustah, o general Heleno é enfático em observar que a pacificação do Haiti só aconteceu depois que os militares entenderam que era preciso fixar bases dentro das favelas. Chamadas de Ponto Forte, delas partiam as ações de combate e também as ações de cidadania, uma estrutura muito parecida como as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP’s), no Rio.
"Nós entrávamos, combatíamos e saíamos. Eram combates muito violentos e com muita resistência. Com o tempo, fomos entendendo que era preciso fixar bases, que chamávamos de Ponto Forte, assim como são as UPP’s. Delas partiam as ações militares e as ações de governo. A ocupação, por si própria, não é o bastante para mudar o local, sobretudo para ganhar o apoio da população. É preciso trazer serviços de saúde, de lazer, de saneamento"
Com Exército e governo do Estado alinhados quanto às formas de se combater o poder do tráfico nas cidades, é preciso definir quem comanda as operações. "Vamos precisar definir a área de atuação, definir a missão, buscar amparo legal para as ações típicas de polícia, porque nós não temos poder de polícia. Tem de arranjar uma maneira de outorgar esse poder de polícia à tropa", disse o general.
"O Exército é um vetor da sociedade que não pode deixar de participar de uma situação extrema de defesa da sociedade. Nós chegamos ao fundo do poço. Não há o motivo, seja ele jurídico ou moral, que diga que não é a hora de aplicar o Exército", afirma Magno, acompanhando por Heleno. "A situação que foi criada não permitia nenhuma análise sobre amparo legal, sobre se aquela era a melhor maneira de atuar. A coisa foi tão rápida que a análises ficaram para depois. O importante ali era não negar um apoio que era altamente necessário em prol de uma causa que não podia ser adiada".