Ainda tem dúvidas de que o aquecimento global está batendo à sua porta? Talvez este texto não o faça mudar de ideia, mas vale a reflexão.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acaba de lançar o Atlas Nacional do Brasil Milton Santos. Entre mapas que mostram densidade demográfica e delimitações territoriais, a publicação traz um dado, no mínimo, surpreendente: o número de brasileiros afetados por extremos climáticos triplicou em dois anos. Em 2007, as enchentes haviam afetado aproximadamente 1 milhão de pessoas; em 2009, este número saltou para 3,2 milhões de brasileiros.
Secas, desastres causados pelo vento e temperaturas extremas também cresceram substancialmente durante o biênio, colocando em cheque a crença de que o Brasil está livre de sofrer com grandes tragédias naturais. “Estamos vivendo numa era de consequências das mudanças climáticas. Isso que está acontecendo no Mato Grosso do Sul, no Brasil e no mundo, coincide com aquilo que os cientistas do clima afirmam que deve acontecer em função do aumento de temperatura da Terra”, esclarece Carlos Rittl, coordenador do programa Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
Por “isso que está acontecendo em Mato Grosso do Sul”, entenda-se períodos de calor, frio e estiagem acima da média; chuvas destruidoras nos alertando para as deficiências da urbanização desenfreada e até mesmo alteração no pulso de inundações da planície pantaneira.
De acordo com Carlos, e qualquer especialista cauteloso, ainda é temerário afirmar que esses eventos sejam consequência direta e exclusiva do aquecimento global. “Isso requer investigação para saber o que acarretou cada um deles”, alerta. Fenômenos como o La Niña e o El Niño também interferem na dinâmica do clima. “O que podemos afirmar com certeza é a coincidência entre o que estamos vivendo e o que os cientistas do clima afirmaram que iria acontecer em função do aquecimento global”, reitera.
Pontos de vista
Para Carlos Nobre, cientista brasileiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), fenômenos climáticos extremos fazem parte da natureza de nosso planeta e sempre aconteceram, com maior ou menor frequência. “Porém, é consenso entre os cientistas que a maior parte do recente aquecimento do planeta é causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa emitido por atividades humanas. Com o aumento da temperatura global, teremos mais eventos climáticos extremos, como secas, inundações e tempestades severas”, esclarece.
Nobre afirma ainda que os brasileiros devem esperar e preparar-se para um aumento da temperatura, no Brasil, entre 2 e 3 graus, ou mais, durante este século, com consequências de aumento da ocorrência e, em muitos casos, intensidade de fenômenos meteorológicos e climáticos extremos.
Questionado sobre se vislumbra alguma solução para reverter ou amenizar essas consequências, Nobre é enfático. “Não há como reverter completamente as mudanças climáticas, todos os países tem que buscar a melhor maneira de adaptarem suas sociedades, atividades econômicas e o ambiente a elas”. Mas, segundo o especialista, tão importante quanto o aumento na capacidade de adaptação, é a busca por reduzir as emissões a curto, médio e longo prazos.
“No Brasil, as principais fontes de emissões de gases de efeito estufa estão direta ou indiretamente relacionadas à agricultura: o desmatamento da floresta tropical Amazônica é a principal fonte de emissões, seguida pelas emissões da produção agropecuária. Estamos num bom caminho, considerando que o Brasil é um dos poucos países com metas claras e inscritas em Lei para reduzir suas emissões”, afirma.
Para Urbano Gomes de Abreu, pesquisador da Embrapa Pantanal, o clima começa a interferir inclusive na produção pecuária tradicional do Pantanal. “O gado pantaneiro depende muito das condições ambientais, por causa da pastagem nativa. A seca deste ano, a mais intensa que tenho lembrança, castigou o gado, que saiu do período seco com mau estado corporal, refletindo diretamente na taxa de natalidade”, explica.
Lucas Leuzinger é proprietário da Fazenda Barranco Alto, localizada no Pantanal da Nhecolândia, onde desenvolve atividades de pecuária orgânica e ecoturismo há pelo menos oito anos. Ele relata que o prolongamento anual das estiagens, do baixo nível do rio e das temperaturas extremas têm chamado atenção. “As chuvas vêm até Aquidauana mas não entram no Pantanal. Parece chover em todo canto, menos aqui”, relata.
Lucas monitora e anota dados referentes ao nível do Rio Negro há sete anos. “Nos últimos cinco anos, as secas vêm se pronunciando e o nível mínimo do rio vem se estendendo até dezembro.
O fenômeno é mais visível nas baías e salinas. Há vários anos que estas não enchem mais até os níveis de 2004. Hoje o nível está cerca de 150 centímetros abaixo dos níveis médios daquela época. No ano 2009 tivemos várias baías e salinas secando totalmente. Parece que ano que vem, 2011 será parecido”, lamenta o fazendeiro.
De acordo com Lucas, num primeiro momento houve ganho de produtividade com a secagem das baías, pois as beiras dessas lagoas oferecem um rico pasto para os bovinos. “Mas uma sequência de anos secos faz o Pantanal perder em produtividade, pois os campos abertos são mantidos limpos pelas águas. À medida que estas águas se tornam mais escassas, os campos vão sujando. Arbustos vão tomando conta do campo limpo e o transformando em cerrado lentamente. Com isso perdemos as gramíneas que são a base da pecuária extensiva do Pantanal”, explica.