Engana-se quem pensa que tricô e crochê é decoração para casa de avó. O uso de elementos feitos à mão vem ganhando força no design contemporâneo. “Foi na última feira de Milão que esse movimento tomou forma e se tornou um conceito denominado Slow Design”, explica a arquiteta Mari Dabbur, de São Paulo. A crise na Europa fez o mundo do design repensar a produção industrial e em grande escala. Muitos produtos lançados na feira foram desenvolvidos e produzidos usando técnicas manuais. Nesses casos o trabalho é feito num ritmo mais lento e valoriza a mão de obra e a “história” de cada criação. “O crochê pode ser aplicado em qualquer objeto, basta ter criatividade e pesquisar o fio ideal para cada tipo de produto”, afirma Mari.
A arquiteta Camila Fleck, gaúcha com escritório no Rio de Janeiro, diz que o artesanato ainda é visto com preconceito no Brasil. Mari concorda, mas diz que o cenário está mudando. Um exemplo é o trabalho desenvolvido pelo arquiteto Marcelo Rosenbaum, de São Paulo, que insere o artesanato brasileiro no mundo do design tanto no país quanto no exterior. Neste ano, várias feiras de design e de luxo abriram espaço para a exposição de objetos feitos à mão.
A arquiteta Mari Dabbur aprendeu o crochê aos 13 anos e já desenvolveu peças únicas para lojas e para outros arquitetos. “Esta é uma característica peculiar à produção em pequena escala, ela nos possibilita desenvolver peças únicas e/ou obras de arte”, opina e cita o quadro de renda desenvolvido em parceria com o artista Giuliano Martinuzzo. “Esta é uma vantagem da produção não industrial”, completa.
Mãos à obra
Camila explica que os ambientes decorados com peças de tricô ficam mais aconchegantes, principalmente em lugares mais frios. Cita as almofadas do designer americano Jonathan Adler, que mescla grafismos e pop art ao tricô, como exemplo de peças que unem a técnica milenar à estética contemporânea. “Capas de crochê para revestir cadeiras podem dar uma renovada na sala de jantar”, completa Camila.
Já a arquiteta Mari Dabbur desenvolveu um abajur com a clássica estampa pied de poule. O diferencial é que a trama foi feita em pontos de crochê. Outro destaque de seu trabalho é a Coleção Renda-se, com luminárias e pufes. “As técnicas antigas e lentas, como o crochê, podem ser usadas para desenvolver um design onde tempo e modernidade resultam em criações contemporâneas e inusitadas”, explica Mari. A arte também pode ser inserida em ambientes masculinos, trazendo o aconchego da arte sem se tornar piegas. “A coleção Urban foi desenvolvida com este conceito, inspirada em carros esportivos, mas feita com a técnica do crochê”, explica.
Independente do estilo da decoração, o importante é adequar a cor, a forma e a textura do produto ao contexto do ambiente. “Às vezes é preciso que o objeto tenha o mesmo tom da decoração e apenas uma textura diferente, outras vezes ele pode ser um elemento de destaque com cor forte e presença marcante”, finaliza Mari.