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‘A Igreja terá de ser muito mais criativa na transmissão da fé’

‘A Igreja terá de ser muito mais criativa na transmissão da fé’

Redação

03/03/2013 - 16h00
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Dom Dimas. Logo que o papa Bento XI anunciou sua renúncia, ele mesmo disse, e as principais lideranças também, da necessidade de a Igreja Católica modernizar-se, renovar-se. Que tipo de renovação, de modernização, o senhor entende que tem que ser feita na igreja católica?
Dom Dimas: O próprio papa João XXIII quando convocou o Concilio Vaticano II, ele usou a expressão atualização, renovação, no sentido do diálogo com o mundo contemporâneo. Hoje tudo muda de uma maneira muito acelerada. A própria história, se é que a gente pode dizer assim, ela está acelerando. Basta lembrar que com as mídias sociais e a evolução das novas tecnologias, o mundo inteiro virou uma espécie de aldeia global, que tem como assistir em tempo real, ao vivo e a cores, uma guerra acontecendo do outro lado do mundo, e acompanhar a despedida do papa, sempre em tempo real. Isso, só pra ficar em um aspecto. O fato é, que hoje, por exemplo, a internet não é uma ferramenta, ela se tornou uma verdadeira ambiência na qual as novas gerações são simplesmente criadas, isso pelo menos, aquelas que desfrutam da inclusão digital. Com isso, surgem novas formas de exclusão, novas formas de pobreza, mas ao mesmo tempo novos desafios, passando pela própria transmissão da fé. Nós vivemos na sociedade do transitório, da sociedade líquida, onde tudo que é solido se desmancha no ar. As instituições tradicionais, como é o caso da própria família, mesmo a escola, a igreja, elas nem sempre têm a consistência que tiveram um dia. De modo que, o grande desafio da igreja nos nossos tempos, é a transmissão da fé às novas gerações. De modo que essa transmissão seja relevante e pertinente, compreensível para as novas gerações. Então aí, é necessário novos métodos e um novo ardor missionário. Emfim, a modernização.

Isso passa pelo uso das redes sociais?
Eu citei apenas um exemplo. É claro que a evangelização passa sim pelo uso dos novos meios de comunicação. Nós vivemos, como eu dizia, na sociedade do transitório, do fugaz, da sociedade líquida. No entanto, nós acreditamos em valores perenes, nós acreditavmos em compromissos definitivos. Hoje existem inclusive filósofos, na linha do chamado pensamento fraco, que chegam a dizer que qualquer compromisso definitivo seria uma espécie de traição com o meu futuro, uma vez que eu me fecharia a oportunidades, que só o futuro vai me dizer. No entanto, para nós, o amor é eterno, e ele pede compromisso definitivo. Como justificar e como transmitir esta estabilidade de valores, como por exemplo a indissolubilidade do matrimônio, ou por exemplo a possibilidade de votos perpétuos, ou no empenho de uma palavra que valhe mais do que um contrato escrito. Aí, há toda a necessidade de articulação também, do lado das mídias sociais, que são apenas um exemplo, que você pode ter milhares de seguidores, e na hora que estiver no leito de um hospital, não ter nenhum amigo por perto. Então essa renovação exige de nós muita criatividade. Não esqueço de um amigo meu lá da CNBB, quando eu era assessor, que disse que o século 21 será marcado por ausência de caminhos prontos, não existem receitas de bolo. Então, para quem não gosta de pensar, vai ser uma tortura, mas para quem gosta e é criativo, investir na própria vida, em uma causa que valha a pena, o século 21 vai ser uma das eras mais fascinantes da história.

A Igreja católica tem tido uma certa dificuldade na formação de novos padres. E isso, quando se fala em renovação, reascende o debate sobre o casamento de padres, padres poderem se casar. Essa é uma saída para se formar novos padres?
Eu acredito que não faltam vocações. O que falta é um bom trabalho vocacional. Existem padres casados na igreja oriental católica. É perfeitamente possível o seminarista optar pelo celibato ou não. Isso não significa que os orientais tenham mais padres do que nós. Nós temos o caso dos diáconos casados, na igreja católica. Aqui no Brasil, nós temos vários, em Campo Grande, nós temos apenas três diáconos casados. Nós temos dioceses como o Rio de janeiro, Florianópolis, Apucarana, São Jose dos Campos, que têm dezenas ou centenas de diáconos casados. O diácono mesmo sendo ministro ordenado, ele tem as mesmas dificuldades de qualquer pai de família na educação dos filhos. Tem diácono que tem filhos completamente alheios à igreja, filhos evolvidos com drogas. E de Nós ordenamos diáconos, pois, boa parte das nossas paróquias não consegue manter o padre, imagina então como é que ficaria se os padres casassem... Eu acredito que o celibato é um grande valor que a igreja vai conservar, agora por outro lado, eu acredito plenamente que nós ainda não valorizamos suficientemente os leigos e leigas. Eles precisam ser fortalecidos no sentido de serem protagonistas da evangelização.

Dom Dimas, o próximo papa, que será escolhido. Que perfil o senhor acredita que ele deve ter?
Apenas para ficar nos últimos setenta anos, João XXIII, um papa bom, até meio bonachão, já com uma certa idade, no entanto, foi um dos grandes papas da igreja ao convocar o Concílio Vaticano II. Paulo VI foi aquele que teve a tarefa difícil de fazer a transição acontecer, a novidade do concílio, e por outro lado também o entusiasmo exagerado daqueles que achavam que era só dar o banho no bebê e jogar a água fora, correndo o risco de jogar o próprio bebê pela janela, só para usar uma expressão que é conhecida. Aí vem João Paulo I, o papa do sorriso, aquele de 33 dias. Ele morre, aí vem um polonês, que quando é apresentado na praça de São Pedro, só os próprios poloneses sabiam quem era Karol Wojtyla, que a igreja estaria diante de um elemento de comunicação e expressão. Mudou muitas coisas e colocou nos eixos muitas coisas. Depois, Bento XVI, que iniciou o pontificado com idade próxima daquela que João Paulo II tinha morrido. Grande intelectual, em Roma. Ele conquista as multidões de uma maneira diferente. Então, certamente o novo papa não terá o peso teológico de Bento XVI, que é o maior teólogo vivo do nosso tempo. Pode ser uma pessoa muito simples, como foi João Paulo I, e que supreenda.

Há chance dessa vez de um cardial brasileiro ou um latino-americano vir a ser papa?
Sempre há. Não veria como algo a ser descartado. Sem dúvida alguma, vários nomes no cenário continental, digamos, e que são pessoas de grande valor, e que têm um grande amor pela igreja, que poderiam levar uma contribuição importante para a igreja em âmbito universal.

O novo papa deve ser mais jovem?
Eu acredito que sim. João XXIII e Bento XVI foram papas considerados de transição. Agora, não necessariamente, precisa ser alguém tão jovem como João Paulo II, que era um atleta. Não precisa ser atlético ou tão jovem assim. Mas de qualquer maneira, eu acredito que teremos alguém com uma expectativa de vida, possivelmente um pouco mais alongada.
 

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