Um canto na madrugada, que chega a durar até duas horas seguidas, anuncia a presença do sabiá-laranjeira. A sinfonia da ave tem uma explicação científica.
Segundo o ornitólogo Márcio Repenning, 31, do Laboratório de Ornitologia do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS, a ave canta principalmente para defender um território em disputa com outros machos da mesma espécie e seduzir a fêmea. "Machos que cantam com mais vigor a priori terão melhor capacidade de alimentar os filhotes."
Já Frisch lembra que o pássaro fica a até cinco metros de distância do ninho para ensinar a melodia aos filhotes, explicando, assim, a aula madrugada afora.
A escolha do horário, diz Frisch, é estratégica: durante o dia, se abandonasse o ninho, o macho deixaria os filhotes na mira de predadores.
O pássaro é o regente da estação que se avizinha, mesmo numa cidade com pouca área verde como São Paulo. De Higienópolis ao Morumbi, do Sumaré ao Tremembé, o canto está por toda a parte.
Morador de Interlagos (zona sul), o dramaturgo Brunno Almeida Maia, 26, conta que a rua onde vive nem é tão arborizada assim, mas, "por sorte", a vizinha tem um jardim, que é voltado para a janela do quarto dele.
"Como tenho insônia, ouço o trinado até as 5h. Confesso, não me incomoda. É como o barulhinho da chuva."
Diz que prefere o canto do sabiá-laranjeira ao ronco de alguém ao seu lado ou "à barulheira de um vizinho ouvindo 'Applause', da Lady Gaga". "Eu quero mais é o sabiá."
Nenhum pássaro da espécie canta igual ao outro, segundo Frisch. O ornitólogo catalogou o canto de mais de cem sabiás em diferentes pontos da cidade e do país.
Da literatura ao cancioneiro popular, o pássaro ganhou homenagens de nomes como Marisa Monte, Tom Jobim e Chico Buarque. Roberta Miranda compôs e Jair Rodriques celebrizou: "A majestade, o sabiá!". O bicho solta o gogó pelo menos até o verão. E a primavera ainda nem começou!