A edição de hoje (31) do jornal Correio do Estado traz reportagem especial sobre o golpe de 1964.

No início de 1964, Dermeval Ramos da Rocha, com 45 anos de idade, morava com a família num imóvel colado ao prédio onde trabalhava como radiotelegrafista. O imóvel era da empresa Correios e Telegráfos, erguido no prolongamento da avenida Coronel Antonino, perto do cemitério Cruzeiro, saída de Campo Grande para Cuiabá.
Dias depois de 31 de março daquele ano, quando os militares tomaram o poder, a mulher de Rocha, grávida, foi notada pelos filhos, chorando, logo pela manhã.
Jipes verdes, ocupado por militares do Exército tinham ido lá na madrugada e capturado o homem. O motivo, sabido mais tarde pela família: o radiotelegrafista gostava de ouvir à noite um programa de rádio que propagava ideais de Leonel Brizola (1922-2004), contrário ao regime da ditadura, deflagrado há exatos 50 anos.
A história que abalou mulher e filhos de Dermeval, morto em 1996, aos 77 anos de idade, nunca fora contada até agora.
O advogado Lairson Ruy Palermo, também preso durante o regime da ditadura, em Campo Grande, hoje coordenador-geral do Comitê da Verdade, Memória e Justiça de Mato Grosso do Sul, crê que ao menos mil pessoas tenham sofrido aqui no Estado violações de direito, feito a de Dermeval, durante a temporada em que o Brasil foi chefiado pelos militares (1964-1985).
O radiotelegrafista, tido como subversivo por gostar de Brizola, foi preso por três ocasiões. Uma das filhas, de 13 anos de idade, à época, ia até a prisão conversar com o pai que dividia a cela com outros tidos como subversivos. A reportagem é de Celso Bejarano.