Cidades

'ALMA DO NEGÓCIO'

Moradores de rua criam 'empresa' ao ar livre e apostam na propaganda

Homens cuidam de carros e fazem a limpeza de uma das ruas da vila Santa Dorotheia

Redação

26/06/2015 - 00h00

Eles levaram a sério o dito popular que diz “a propaganda é alma do negócio” e é por esse motivo que há uma semana os moradores de rua, Cláudio Braga de 52 anos e João Cassio, 45, decidiram mudar a fachada da “empresa”  que criaram no cruzamento da rua das Hortências, entre a 14 de Julho e a 24 de Outubro, na vila Santa Dorotheia em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. São duas placas simples, mas que chamam atenção de quem passa no local. Uma diz: “Estacionamento” e, a outra, “Recepção de veículos”.

Quem recepciona os motoristas é o Cláudio, mais conhecido por “Cabelo”, apelido que, segundo ele, foi dado pelos próprios fregueses. “Não consigo entender o motivo”, brinca ele, apontando para o penteado tipo “black power”.

Cláudio relata que as placas foram anexadas no poste para que os clientes soubessem que eles estavam por perto. “Quando o pessoal vê, já sabe que a gente está aqui”. Como o negócio é só dos dois, ele acumula as funções de ''caixa'' e faxineiro, enquanto João auxilia nesses "serviços gerais". E não existe a menor possibilidade de outros ''sócios'' serem aceitos no local. “A gente não deixa ninguém fazer bagunça aqui. Não é que a gente briga, só fala pra eles sumirem”.

 

E a limpeza é o “ponto forte” naquele estacionamento a céu aberto. Para garantir que a rua fique impecável, os homens acordam às 6h e varrem as calçadas até às 8h, quando os primeiros clientes começam a chegar – a maioria, advogados que atuam no Fórum Trabalhista “Senador Ramez Tebet”.

O cuidado deles com aquele espaço chamou atenção até da Solurb – concessionária responsável pela coleta de resíduos sólidos do município – que fornece sacos plásticos para o descarte do lixo. “A gente guarda tudo e deixa para a Solurb levar embora. Eles já sabem que a gente vai limpar”, conta João.

O valor do estacionamento não é fixo, varia conforme a vontade do proprietário do veículo. “Mesmo que a pessoa não pague, a gente cuida do mesmo jeito. O normal é pagarem com moeda, mas quando eles saem contentes do Fórum, aí a bênção é maior”, revela Cláudio.

A EMPRESA

A rotina rígida de trabalho deles se estende até às 17h30min, garantindo lucro diário de até R$ 80 por dia – R$ 40 para cada um – . “Mas só quando o dia é bom”, ressaltam eles. Na hora da refeição, eles recorrem ao “marmitex” e a partilha do dinheiro é feita no fim do dia.

Como a ''empresa'' funciona no mesmo local em que eles moram, os móveis são os mesmos – troncos das árvores – onde armazenam colchões, roupas e cobertores. A iluminação durante a noite vem de uma igreja localizada na mesma esquina. E quando precisam recorrer ao comércio, eles vão até o posto de combustíveis, situado a menos de 100 metros.

Mesmo sem objetos de valor, os homens também "ostentam" as vantagens de trabalharem naquele ponto. " O que a gente mais tem aqui é amizade”, dizem.

NA RUA

João nasceu no município de Pereira Barreto (SP), mas antes de vir para a Capital de Mato Grosso do Sul, morava em Bauru (SP). Distante dos 12 filhos e 4 netos, ele afirma está em Campo Grande por engano. “Vim de carona pensando que iriam pra Três Lagoas. Pedi para me deixarem aqui e dormi na rodoviária antiga. Quando acordei, estava só com a roupa do corpo”, diz.

Cláudio é natural de Pongaí (SP), morou em Itaquera (SP) e está em Campo Grande há seis anos. Quando chegou na cidade, trabalhava como mestre de obras, até que o último empregador atrasou o salário dele por cinco meses e ele acabou desalojado da casa alugada. “Quero voltar a trabalhar na minha função, mas enquanto não compro minhas ferramentas eu fico aqui. Melhor que fazer coisa errada”.

À reportagem do Portal Correio do Estado, eles contaram que não são usuários de drogas ilícitas, mas bebem e fumam. Eles disseram ainda que pretendem sair das ruas o mais rápido possível. “Tem gente que não troca isso por casa nenhuma, mas nós não conseguimos acostumar. Não tem como acostumar”.  

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