Unidas, bem humoradas e esbanjando simpatia. Estas não são apenas as primeiras impressões de quem entra na casa da família de Rosa Maria Batista Santos, de 55 anos, é também a realidade de quem convive de forma harmoniosa com as duas pessoas mais importantes da vida da ex-policial civil, as duas filhas, Letícia Santos de Oliveira, de 24 anos e Sarah Santos, de 18.
Vítima da talidomida - droga dada à gestantes para combater enjoos que causou má formação em bebês, Rosa tem os dois braços curtos, na altura dos ombros, o que a torna diferente fisicamente das demais mulheres, porém, com o instinto materno aflorado desde os 21 anos, quando casou e, com vontade indescritível de, naquela época, carregar no colo uma criança para chamá-la de “filha”.
GESTAÇÕES MALSUCEDIDAS E A PRIMEIRA FILHA
A ex-policial teve três gestações malsucedidas, sendo a primeira gemelar - meninos, aos 24 anos. “Por incompetência profissional perdi meus filhos. Na Santa Casa entrei em trabalho de parto, a médica me internou e viajou. Na época eu trabalhava na Polícia Civil e acabei perdendo [o bebê]”, relembra, emocionada, o episódio que há 31 anos marcou a sua vida.
No ano seguinte, Rosa engravidou novamente, só que desta vez, a criança, outro menino, não resistiu por conta da pressão alta. Após perder três bebês e vendo a maternidade 'bater na trave' em cada uma delas, a ex-policial já tinha desistido de ser mãe biológica. Resolveu, então, que queria adotar uma criança. Foi aí que apareceu Letícia.
“Fiquei muito mal quando perdi os três bebês. No trabalho da minha irmã tinha uma mulher grávida de quatro meses que queria dar a criança. Foi quando ela disse à gestante que sabia de uma pessoa que queria adotar um filho”, lembrou Rosa.
A adoção foi toda pelo meio legal e demorou dois anos para ser oficializada. Aos nove anos de idade Letícia passava por fase de rebeldia. “Foi aí que resolvi levá-la para conhecer a mãe biológica, pois nunca escondi que ela tinha sido adotada. Certo dia pegamos o ônibus e fomos até o Bairro Los Angeles atrás da mulher, com apenas o nome dos pais biológicos em mãos". O encontro, segundo Rosa, foi muito emocionante.
SEGUNDA FILHA E A TALIDOMIDA
Concursada da Polícia Civil, Rosa Maria foi a primeira deficiente física a trabalhar em Mato Grosso do Sul, durante o governo de Wilson Barbosa Martins. Já com a ideia afastada de ter um filho biológico, Rosa se descuidou e engravidou pela terceira vez, aos 37 anos, do segundo marido.
Neste momento as lembranças do passado vieram à tona e o medo de passar por mais uma decepção era inevitável. “Eu tinha muito medo, pensei que fosse perder mais um filho. Foi uma gestação 'pisando em ovos', mesmo assim trabalhei até um dia antes da criança nascer.
Além da gestação ter sido emocionalmente desgastante, por conta dos três meninos que ela perdeu, com sete meses Rosa descobriu que a filha herdava a genética dos pais. “Uma coisa é você ser deficiente, outra é saber que seu filho também será. Meu mundo desabou quando eu descobri, caí em depressão, me senti frustrada”, desabafou.
A mãe do pai de Sarah também tomou a talidomida durante a gestação, por isso o pai dela nasceu com má formação no braço e nas duas mãos, sem os polegares. Mas a angústia não parou na limitação física que a filha teria que conviver. Quando a menina nasceu a pediatra informou que ela precisava de um transplante de coração com urgência.
“Ela nasceu com insuficiência cardíaca, a médica não deu 24h de vida para ela. Eu vivia no hospital. Saí do hospital e Sarah continuou internada, eu vinha para casa chorando”. Foi neste momento que Rosa Maria, até então com dois sonhos, teve de abrir mão de um deles para se dedicar ao outro. Após 15 anos Rosa deixou a Polícia e se mudou com a família para o Paraná para cuidar do coração de Sarah. “Então ela saiu da fila de transplante, implantou marcapasso aos 7 anos e fez oito cirurgias cardíacas, sendo a primeira com dois anos”.
Já com os olhos marejados, Rosa conta que aquele momento da vida dela foi dedicado a salvar a filha.
Depois de 10 anos, quando Sarah já estava boa, voltaram para Campo Grande, em 2008. “Letícia voltou na frente, ela não se acostumou lá, veio morar com minha mãe. Meu coração ficou partido, uma filha lá e outra aqui”. Apesar da alta médica atual, Sarah faz acompanhamento em Curitiba a cada seis meses.
Aos 24 anos, Letícia cursa duas faculdades, filosofia e história. Rosa diz que a vida da filha é estudar. Parceiras em tudo e de poucas brigas, Sarah é vista como mais geniosa, porém, a conciliadora da casa, e Letícia a mais dócil. “Costumo dizer que a Letícia eu tenho que empurrar para a vida, Sarah tenho que puxar”, brinca.
Estudante de jornalismo Sarah é mais comunicativa e sai em defesa da irmã e da mãe quando o assunto é família. Apesar dos tropeços, Rosa se sente realizada como mãe das duas meninas. "Meu sonho era ser mãe".
SOBRE A DOENÇA
A talidomida foi uma droga distribuída na rede pública para tratar pessoas com hanseníase - doença antigamente chamada de lepra, que ataca nervos periféricos e a pele. Ela foi introduzida no Brasil no final dos anos 1950, como um sedativo. A substância era dada às mulheres grávidas para combater os sintomas do enjoo matinal.
Mas o uso durante a gestação restringiu o crescimento dos membros dos bebês, que nasceram com má formação nas pernas e braços. Em torno de 10 mil bebês nasceram com defeitos físicos em todo o mundo até que a droga fosse tirada de circulação em 1962.
Na maioria dos países, os bebês vítimas da talidomida se tornaram adultos, hoje com cerca de 50 anos de idade, e não houve mais novos casos registrados. Rosa e a filha mais nova fazem parte hoje de um nicho de pessoas que carregam os reflexos da droga.