Se dependesse da situação financeira da família, a história de Matheus Fagundes, hoje com 23 anos, não sairia do comum e seria semelhante a de muitos jovens campo-grandenses que concluem os estudos por aqui e iniciam uma profissão. Mas a ousadia desse menino foi tanta que ele saiu do lugar comum, escolheu uma carreira pouco conhecida em boa parte do país e agora se prepara para um projeto que pode levar 8 anos da vida dele longe da família.
Matheus é filho de pai comerciante e mãe que faz e vende salgados. O ensino fundamental foi todo concluído na Escola São José, no bairro de mesmo nome. Apaixonado pelos estudos, o menino conseguiu duas bolsas de estudo que deram a ele a chance de concluir o Ensino Médio nas escolas Auxiliadora e Mace.
Foi só no último ano, prestes a fazer o Enem e se preparar para entrar na faculdade, que Matheus descobriu sua profissão, oceanógrafo. O estudo do meio marinho e das profundezas do oceano foi apresentado para o adolescente por uma amiga da escola. A partir daí, Matheus pesquisou mais sobre a área e decidiu que esse seria o objetivo de vida.
Mesmo aprovado no curso de Medicina Veterinária, o jovem resolveu usar a nota do Enem para tentar aprovação na Universidade Federal do Maranhão, que oferece o curso de oceanografia, presente em em locais litorâneos.
O problema que poderia ser obstáculo para o rapaz foi contornado com ajuda de um parente. Como os pais de Matheus não tinham condições financeiras de bancar o menino fora de Campo Grande, mesmo com a aprovação em universidade pública, um tio de Matheus que vive no Maranhão decidiu ajudá-lo e em 2010 ele partiu para o outro lado do país estudar o que tanto gostava.
Dois anos depois, o programa Ciência Sem Fronteiras, criado pelo Governo Federal, deu ao universitário a chance de concluir a graduação no Canadá. “Eu nunca gostei de inglês, mas meus pais me obrigaram a frequentar o curso oferecido pela UFMS e isso me ajudou muito no tempo que passei na Memorial University of Newfoundland”, conta Matheus.
Os dois anos vividos fora do Brasil fizeram com que o estudante conquistasse a maturidade e focasse ainda mais na carreira de oceanógrafo. Quando o período da bolsa terminou, Matheus voltou ao Maranhão para concluir a graduação e acabou se especializando na oceanografia física, considerada os “bastidores” dos estudos que baseiam as previsões do tempo.
“Eu queria muito aprender o modelo numérico que eu uso e falei com meu orientador da faculdade. Ele acabou me indicando para um colega no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São Paulo, e eu consegui um mês de estágio lá, no ano passado”.
Com toda a experiência que o estágio trouxe ao recém-formado, o segundo passo da vida acadêmica começou a se tornar um sonho cada vez mais alcançável. Matheus se candidatou a uma bolsa de mestrado nos Estados Unidos e conseguiu.
Ele embarca no começo de agosto para Georgia, e vai cursar o mestrado em oceanografia física por três anos na UGA. A bolsa conquistada por ele contempla as mensalidades e o valor para o jovem se manter nos Estados Unidos, são US$ 60 mil por ano. A expectativa dele é conquistar uma nova bolsa, quando concluir o mestrado, para cursar doutorado, se isso acontecer, Matheus teria mais 8 anos de estudo pela frente.
“Eu sempre bato na tecla que meus pais nunca tiveram condição de sustentar os meus estudos, eu tive que me esforçar e acreditar que conseguiria e vou continuar acreditando”, completa Matheus.